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p e r s p e c t i v a s .I

a r t e .c o n t e m p o r â n e a | a r t e .l u s ó f o n a

©Emeksef - Francisco Xavier Menezes

d e n t r o- e -f o r a

A arte contemporânea da diáspora africana em Portugal constitui um campo emergente e único de construção do conhecimento sobre a história comum e a identidade pluricultural dos nossos dias. Apesar da vocação ancestral, os mecanismos de regulação da cultura portuguesa contemporânea assumem uma perspectiva predominantemente monocultural. Apesar das heranças partilhadas, ainda partimos do desconhecido quando avaliamos a produção artística dos países que falam português. O mesmo se passa relativamente aos autores que, construindo a contemporaneidade portuguesa, reivindicam o imaginário e a vivência da diáspora como uma das suas referências de discurso e expressão artística.

Entendida como arte desterritorializada pela crítica e circuitos de mercado vigentes, ela coloca-nos perante a necessidade de repensar os discursos, as práticas e o sistema de criação de visibilidade. O que entendemos por cultura e identidade artística? O que vem definindo a arte urbana e a produção estética em Portugal? Qual a nossa experiência de alteridade?
Apesar da diversidade geográfica e cultural de origem, os autores integrados nesta exposição partilham entre si a afirmação da arte como geografia de identidades assente na convergência de referências estéticas. Todos eles criam partindo de uma vivência em rede – única e sempre partilhável -, que por vezes escapa às tentativas de análise crítica.

Venho observando o trabalho destes e de muitos outros autores ao longo do tempo; por vezes em programas de rádio, outras apenas discorrendo silenciosamente sobre as suas palavras e imagens. Sei que a sua arte esquece - entre outras - uma certa ideia de morte da pintura, possuindo sempre uma forte marca cultural e discursiva. Em África e Portugal, o seu trabalho exercita o gesto de reprendre: uma estratégia de retoma e re-apresentação assente na vontade de actualização de um arquivo de referentes onde o dualismo interior/exterior – dentro e fora – está presente. O desafio é vasto e os nomes que integram esta exposição merecem um espaço de perspectivação teórica que excederia o espaço destas páginas ou o prazo limite de uma exposição. Importa dar continuidade a estas e outras Perspectivas sobre a arte e o pensamento, reconhecendo a necessidade de uma cultura contemporânea verdadeiramente aberta em Portugal.

Nota | Este texto integra o catálogo da exposição colectiva de 2005|6 apresentada na Casa Santa Rita e integrada por Eduardo Malé, Eleutério Sanches, Emeksef, Ismael Sequeira, Manuela Jardim, Miguel Petchkovsky, Mito, Paulo Kussy, Valdemar Dória.

|in catálogo Perspectivas - Arte Contemporânea I - Casa Santa Rita, Colares - Dez. Jan. 2005-6|

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c o l e c t i v a. l u s ó f o n a

© Rui Jordão

o. m e s m o, i d i o m a

Sei / porque falo / a língua do chão / nascida / na véspera de mim/ minha voz ficou cativa do mundo.

Mia Couto

(...) e voltar o pensamento àqueles lugares onde as palavras – estas razões de verdade – entraram, sem quase dizer uma palavra. Apagando o dizer habitual e resgatando a verdade da multidão de razões.

Maria Zambrano

Esta exposição apresentada pela Galeria da Câmara Municipal de Lisboa assume a língua portuguesa como rizoma e pretende traduzir algumas das vivências plurais e urbanas de um mesmo idioma. É delas que partimos e a elas regressamos como referentes de inscrição e leitura das representações figurativas, narrativas ou culturais, afectas a cada imagem, objecto ou metáfora aqui apresentados.Porque a arte desde sempre age e diz pela multiplicidade de práticas e residências autorais, implicado nesta apresentação colectiva está o conceito de inclusão – entendido como movimento de cruzamento de referências culturais, imagéticos e discursivos, que se actualizam e transcendem em cada universo línguístico. Ao longo da história vamos actualizando a consciência da importância dos modos de migração, deslocação e inserção cultural como estratégias de construção de vivências – ou sobrevivências – culturais comunitárias em diferentes tempos e espaços habitáveis. Importa, assim, começar por analisar cada uma das vozes presentes neste encontro gerado em redor das lusofonias, pela reavaliação dos conceitos de discurso estético e objecto artístico contemporâneos das diásporas luso-africanas. A leitura destes trabalhos implica a consideração de diferentes modos de gestão de memórias e da sua actualização, distintas referências à arte como estratégia de transcendência e transformação do real; diferentes modos de ser, viver e acreditar, que se geram a partir do gesto comum de significar.No âmbito desta colectiva, as opções temáticas, as pesquisas de conteúdos e escolhas formais recorrem a diferentes realidades, mitos e utopias. Cada obra surge perante o olhar como lugar/objecto de conjugação e sobreposição de narrativas, assumindo a sua singularidade em diferentes modos de miscigenação de referências à história política e à estética, aos signos plásticos e formais. Alguns destes autores a intencionalidade inscritiva repensa os suportes, e referências da tradição como artesania: as suas obras expressam o idioma de uma arte do mundo. Noutros casos, as pesquisas caminham no sentido da aplicação de conceitos como intertextualidade e reciclagem de matérias resgatadas a um quotidiano de vivência em rede e mestiçagem cultural. Estas obras falam a língua de uma arte da vida. Ambas as estratégias plásticas apresentadas buscam a ultrapassagem da fronteira de invisibilidade imposta a alguma da arte de raíz africana oriunda das ex-colónias portuguesas. Tratam a matéria plástica como resíduo vivente e reforço textual de cada metáfora visualmente enunciada.Quanto a nós, somos desafiados pela dimensão do espelho que nos revela como observadores observados. Sabendo ser o contexto da globalização de conteúdos, uma das vias abertas ao questionar de nacionalismos e identidades, toda a actualização do conceito de arte contemporânea nos leva a reflectir sobre os nossos modos de fruição, leitura e apropriação dos produtos culturais, partindo do interior dos discursos críticos que sobre eles produzimos. Em que pensamos, quando nos referimos a uma arte contemporânea africana? Quais são os critérios utilizados na sua avaliação e/ou fruição? Quem os produz? E, finalmente, o que fazemos de nós perante o desafio de entender a arte? A arte é sempre testemunho histórico, narrativa inscrita em contexto alargado de in-formação. Ao olhar as obras destes dez autores, descobrimos íntimas marcas em rizoma. Fazedores de mundos nos revemos: são imagens como rostos de estranheza e reconhecimento, habitados pelas geografias de uma comum condição, em devir.

Nota | Este texto integra o catálogo da exposição colectiva de 2001 apresentada no Espaço Chiado do Montepio Geral e integrada por Alcides Baião, António Aly Silva, Mito, Heitor Pais, Iolanda Esteves, Ismael Sequeira, José Zan Andrade, Tchang André e Vitor Alves. Foi posteriormente reeditado, em parte, pela Galeria Municipal da Câmara Municipal de Lisboa em 2002, acompanhando obras de Alcides Baião, Agostinho Moreira, Arlete Marques, Carlos Savoi, Eduardo Abrantes, Nhate e RuiJordão.

|in catálogo Venham mais cinco pela lusofonia Abril 2001 - Colectiva Lusófona Câmara Municipal de Lisboa Julho 2002|

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