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c a r l o s _n e t o

Yin | Yang | 2005 © Carlos Neto

Silence Dot Conv

A história desta exposição decorre da natureza e arquitectura particulares do espaço que a acolhe. O mesmo acontece com a escolha temática do silêncio como modo de designar um projecto no qual referentes ancestrais se cruzam com um certo imaginário tecnológico de preservação das memórias. É assim que, ao darmos entrada no espaço do Convento de S. Paulo, podemos conhecer os mais recentes trabalhos de Carlos Neto nos quais o tempo presente e a atemporalidade vão construindo novas tramas de simbolização. Tudo porque - tal como nos diz o autor -, “são a própria arquitectura e a história do lugar que se deixam percorrer pela pintura”. Carlos Neto recorda-nos as origens desta apresentação nascida da colaboração entre a Galeria Quattro e a Fundação Henrique Leote, sediada no próprio Convento, cuja acção se desenvolve no sentido da preservação do monumento e da sua memória. “A hipótese de trabalhar no Convento acabou por funcionar também como um desafio que surgiu na altura certa, levando-me a repensar as noções de corpo, ritmo e espacialidade. O próprio nome da exposição sublinha este conceito de itinerário , de transcorrência temporal de um espaço. Joguei com a própria noção contemporânea do acesso directo ou transversal à imagem e aos universos mediáticos da realidade virtual”. Carlos Neto [n. 1955 – Sintra] inicia a sua formação artística com estudos de dança e coreografia para a dança com Maryse Giselle e Ruben Marks. Entre 1982 e 86 trabalha em cenografia para bailado, teatro e televisão, apresentando a sua primeira individual de pintura, nesse último ano, no Interclub 17 de Paris. Seguiram-se diversas colaborações estabelecidas a título nacional e internacional com instituições, workshops ou galerias. Integrada no grupo Grands et Jeunes d’Aujoud’hui em Paris, a sua obra acha-se actualmente representada em Portugal, Bélgica, Polónia, Emirados Árabes e Grécia. Do exercício do silêncio como estratégia de conquista de conhecimento individual e intra-pessoal, terá partido Carlos Neto para a estruturação de um trabalho no qual a pintura quase se lhe equivale, enquanto ritual de depuração. “Acontece que, para mim, o conceito de silêncio imaginado começou por ser uma ideia predefinida do cinza, depois quis trabalhar a cor como factor de recepção essencial de contrastes. Daí que muitas das formas sejam recorrentes, simbolizando ferramentas e funcionado como ramos, aludindo a amibas ou outras formas relacionais. O movimento de cada quadro expressa ainda rituais de encontro. As cores quase se apresentam ao olhar como sínteses finais decorrentes da conclusão do trabalho manual e de um processo da alma”. Para o observador, é no rasto desta temática da manualidade que aqui se redescobrem dois princípios constantes em toda a obra de Carlos Neto: a fragmentação do corpo e a sua inscrição rítmica no plano da tela , sempre sugerindo uma ultrapassagem visual dos limites do quadro. Tal como na dança, esta pintura celebra o corpo como como suprema instância relacional: “É certo que a pintura é, em si mesma, ferramenta e ofício de desocultação, através do silêncio. Talvez na minha obra o corpo tenha surgido sempre como interface do mundo”. Em Silence Dot Conv a pintura representa o des-nacer do corpo e também o seu retorno ao elemento espacial como habitáculo ou território de (i)localização. A referência temática ao domínio virtual é a derradeira instância dessa relação que o corpo representado estabelece com o exterior e que é configurada desde o interior da tela: “Sabes, julgo que acabei por escolher eu próprio um caminho para a pintura, trabalhando sobre a ideia de corpo e a sua ausência. E depois, um pouco ao acaso, descobri uma expressão inglesa que traduz tudo isso: wherever. O corpo é instância inscritiva e testemunho de vivências, tal como quando olhamos para uma cama desfeita e abandonada”. Acrescentamos nós que – ainda por recurso ao imaginário da pintura – cada matéria é matéria pura, aura, factor de celebração do espaço, destino do olhar e promessa de transfiguração. Cada corpo desoculta pedaços de vida quotidiana ancorados no silêncio e é exactamente deste jogo de encontros entre a arte e a vida de que nos fala Carlos Neto em Silence Dot Conv.

|in Arquitectura e Vida Nov 2000 ©Mafalda Serrano|

Todas as imagens usadas com permissão dos autores

Yin e Yang | 2011 © Carlos Neto

 

 
 

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