a | b | c | d | e | f | g | h | i | j | k | l | m | n | o | p | q | r | s | t | u | v | x | y | z | c o l e c t i v a s

 
 
a r c h i v e s | secção j
 
 

 

j o s é_ d e_ g u i m a r ã e s _| _ j o s é_ p e d r o_ c r o f t

j o s é_ d e_ g u i m a r ã e s

A obra de José de Guimarães apresenta-se como testemunho global da constituição de um saber do Mundo centrado na relação dual estabelecida entre os conceitos de espírito e corpo, alma e maténa. Perante o observador, esta retrospectiva surge com a dupla função de promover a memorização do real e a simbolização metafórica efectuada sobre um destino em devir comum à arte e ao Homem. Inscritas no contexto arquitectónico da Cordoaria Nacional - onde cada elemento estrutural do edifício foi definitivamente preservado e incorporado no percurso visual-, as sete etapas expositivas traduzem uma cronologia espontânea - traçada ao longo dos 40 anos de actividade artística constante e pluri-referencial de J.G. - concebida pelo próprio autor e referente às suas passagens por diferentes partes do Mundo. Cerca de metade deste conjunto de 550 trabalhos é constituída por obras inéditas em Portugal que agora se inscrevem num macrocosmos visual formado por múltiplas geografias e momentos estéticos, segundo a montagem técnica assinada pelo Arqtº. André Maranho.

Tratando-se de uma exposição comissariada por Isabel Vilanova e Pierre Léglise-Costa esta grande individual - que constitui a maior retrospectiva alguma vez realizada sobre José de Guimarães - começa por questionar o conceito de inscrição espácio-temporal do objecto artístico, agindo segundo uma lógica de intertextualidades arquitectónicas e sectoriais. A ela se refere o autor como sendo a resultante de três anos de esboços preparatórios, inicialmente traçados com Isabel Vilanova e, num segundo tempo, com Pierre Léglise-Costa -, folheando dezenas de catálogos anteriores e sobre eles reconstituindo os contextos referentes a pequenas e grandes histórias onde a arte caminha dentro da vida. As duas primeiras décadas de produção de José de Guimarães testemunham uma abertura ao elogio de vivências e experimentações estéticas, (des)construções sequenciais de utopias partilhadas com o espectador. Recorrendo a narrativas seriais e ao uso de múltiplos códigos e linguagens, J.G. aborda os pilares da pop-art e os arquétipos culturais da malha identitária colectiva. Reflectindo sobre os binómios alma/corpo e sagrado/profano, o autor inventa novos signos e recompõem os sinais que concorrem para a constituição de um idioma ideográfico original e reconhecível. A sua arte afirma-se como puro manifesto de um certo entendimento da arte como instância de sobrerrealização. Cada obra, tema ou suporte escolhido servem o duplo exercício dessa função simbólica e sígnica sobre um visível que se constrói e transfigura, assumindo a manualidade como gesto de livre apropriação.

"Esta exposição resume 40 anos de trabalho correspondentes a quatro décadas da própria história viva de uma identidade sócio-cultural colectiva e interdialogante. Paralelamente, a postura experimentalista implica, do mesmo modo, o assumir de uma vontade de inclusão e transformação constante de referentes", continua o autor. "Aqui eu falo um pouco por proximidade comparativa à estratégia de inclusão que desenvolvi relativamente à arte mexicana, procurando recontextualizar e evocar um determinado universo cultural, imagético ou expressivo''.

Da nova relação criada entre diferentes correntes artísticas e geografias estético-culturais nos falam estas suas obras nascidas do contacto entre a história da arte e o imaginário, oriundas das suas experiências europeia, africana, mexicana e asiática. A cada série de composições, José de Guimarães repensa e questiona os limites, função e estatuto do objecto artístico. Entende-o como corpo composto e fragmentário, desafiando-nos à experiência de transmutação, prefiguração ou alteridade. "Relativamente a esta questão da relação que o meu trabalho artístico cria entre matéria e espiritualidade, penso sempre naquele manifesto que escrevi na década de 60. Ou seja: acredito que a arte, de algum modo, realiza o mistério. De resto, a minha arte é muito ligada ao espírito, embora a came lhe seja abundante! Isto é por mim dito e entendido na mais completa das liberdades." Adivinhando silêncios , vozes resguardadas pelos rostos das máscaras, ou descerrando os seus relicários aqui expostos como páginas de um diário composto, a obra de José de Guimarães parece inaugurar uma derradeira trajectória de manipulação luminosa e elástica do visível. Os néons que encerram o percurso da exposição actualizam o conceito de inscrição pictórica através da manipulação da luz e das sombras, agindo em sobreposição ou bidimensionalizando a matéria. Diante destas últimas obras - já concebidas entre finais da década de 90 e a actualidade - enfrentamos uma nova etapa de exploração dos códigos ontológicos da representação e da inscrição visual que gradualmente sugere novas escalas e ritmos compositivos. "Penso que é isso mesmo que me interessa: trabalhar desde o interior da lógica de apropriação do espaço e assim desenvolver a minha acção criativa. A minha arte é uma antropologia específica de ocupação territorial."

Nota: A exposição fez-se acompanhar da edição de um catálogo com edição bilingue
dos textos de Christine Buà-Glucksmann, Eduardo Lourenço, João Fernandes,
João Soares, Joélle Busca, José Augusto-França e Maria Calado, para além do
formato CD com duas obras de Isabel Soverai dedicadas ao pintor: "Inscrip-
tions Sur Une Peinture"(1998) para orquestra de câmara - interpretada pelo
Klangforum Wien, sob a direcção de Pascal Ropbé; e "Heart" (2001) para
guitarra e fita magnética, numa interpretação de Paulo Vaz de Carvalho
.

|in Arquitectura e Vida Setembro 2001 |

regresse ao topo

 
 

 

j o s é_ p e d r o_ c r o f t

Foto Laura Castro Caldas e Paulo Sintra

Escultura

Na sequência da colaboração iniciada em 1998 com a Galeria Quadrado Azul – então assinalada com a apresentação de uma mostra individual de escultura e desenho -, José Pedro Croft regressa agora ao mesmo espaço do Porto apresentando algumas das obras que nos mostram as suas mais recentes linhas de trabalho. Paralelamente, é ainda durante a primeira quinzena deste mês de Junho que o projecto expositivo Connecting Worlds: Contemporary Sculpture from the European Union levado ao Kennedy Center for the Performing Arts de Washington DC, integra uma das suas últimas obras.
“Digamos, simplesmente, que após a minha última mostra de 98, tinha chegado a altura de voltar a expôr com a Quadrado Azul. Trata-se de uma individual que, de certo modo, acompanha a minha participação na colectiva de Washington; e as grandes linhas de trabalho estão expressas no modo como venho desenvolvendo as minhas pesquisas em redor das relações estabelecidas entre escultura e espacialidade, considerando ainda e sempre o contexto arquitectónico de envolvência”.
A propósito desta individual apresentada no Porto, J.P.C. refere algumas das principais referências do seu universo de investigação e trabalho centrado no estudo dos factores de densidade da luz e de inscrição espacial do objecto escultórico. Tendo iniciado o seu percurso no princípio da década de 80, J.P.C (n.1957, Porto) assinala o corrente ano de trabalho com a participação na colectiva da Galeria Phoebus de Roterdão – no âmbito de Porto-Rotterdam, Cidades Europeias da Cultura – e ainda com a presença nos certames AR.CO’01 e FORO SUR de Espanha em colaboração com a galeria portuguesa onde agora reconhecemos os reflexos de um novo patamar criativo.
“Este meu trabalho opera com estruturas metálicas e espelhos, sim ... Nos Estados Unidos a minha participação faz-se com a proposta de uma peça de exterior para retomar a tal questão da espacialidade. Lá, tal como aqui, a minha escultura dialoga com a arquitectura, nela se inscrevendo e sobre ela potenciando a sua acção. Trata-se sempre de uma relação criadora de direccionamentos duais.”

Observando de perto as suas obras, somos levados a entender o seu trabalho de escultor como processo de intensidade e de procura, percurso radicado no ponto de absoluta gestação da forma: com J.P.C. a escultura é escrita do lugar e seu receptáculo. Enquanto elemento de inscrição e reflexão da luz e da própria espacialidade– sendo ainda vector de delimitação do contexto espacial circundante -, o espelho que nos desafia e reflecte parece indiciar uma linha de demarcação entre territórios profanos e simbólicos. Do mesmo modo, é ainda essa mesma superfície lisa de espelhamento que serve o enunciado da condição temporal em que se baseiam estes códigos de representação. “A alusão à própria feitura e estruturação da imagem e do conhecimento está, de facto, aqui presente. E embora a recepção da obra implique sempre uma dominante de subjectividade, claro que essa marca existe, nomeadamente por alusão aos mitos de organização do caos como modos de criar mundos. Eu concordo que a ideia de Deus e do Sagrado também lá está, sim. Mas sobretudo vejo a Morte e esse Caos que é o cerne de tudo. A presença do espelho visa reflectir o espaço simbólico e testemunhar o seu potencial maior de integração”.

Recordamos ainda as palavras de J.P.C. olhando a sua escultura como vector de reapropriação da ideia de corpo. O corpo como instrumento de mediação e vivência da própria arte e dos valores de jogo, deriva, e espacialidade. Será esta, aliás, uma das tónicas constantes da sua realização escultórica presente nos seus anteriores e mais conhecidos trabalhos. “Refere-se à peça do Centro de Arte Moderna? ... Sim, essa mesa foi exactamente trabalhada segundo um princípio de inversão dos tais valores de percepção e representação espacial, objectual e temporal, também. Porque a verdade é que ela começou por ser recuperada ao Tempo – assim de passagem por um antiquário –, depois trabalhei-a pensando na escala antropomórfica de um adulto. Considerei a existência física e real de um espaço nulo que habitualmente não utilizamos, limitando assim a nossa própria leitura do Mundo ao vulgarmente convencionado. A abertura a uma nova instância de representação é sempre indiciadora de novas possibilidades de leitura. É isso que procuro com o meu trabalho.”

A obra de JPC fala-nos da busca de essências, da enunciação das instâncias do Ser e da construção do conhecimento. E age sobre nós identificando e reactivando os diferentes níveis da nossa percepção visual e funcionamento sensorial. Estas esculturas moldam-nos o olhar com o Tempo. Por elas desenhamos gestos de invenção, derivação e desdobramento de identidades.

|in Arquitectura e Vida Junho 2001 |

 
 

b i o | e s c r i t a s | r á d i o | i m p r e n s a | c o n t a c t o s

regresse ao topo

 
 

Retome a Primeira Página ...

LuminaDivinae® ©2008 Mafalda Serrano