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Álvaro Cunhal

A Arte, O Artista e a Sociedade

"O ensaio A Arte, o Artista e a Sociedade agora editado, começou há anos a ser escrito, inserido num projecto de aprofundamento ulterior do estudo que acompanhasse a evolução das ideias e das obras de arte no quadro das realidades sociais no mundo em mudança" - in A Arte, o Artista e a Sociedade - Editorial Caminho

Álvaro Cunhal, Julho de 1996

 

Mafalda Serrano - Boa tarde, Dr. Álvaro Cunhal.
O facto de esta sua obra, agora publicada, se apresentar como "análise e proposta de análise", leva-me a colocar-lhe uma primeira questão. Qual é a importância que poderão ter a Arte e a reflexão estética no percurso da Humanidade, nomeadamente na actualidade?


Álvaro Cunhal - Eu penso que a Arte é um dos aspectos da vida humana e do valor humano sobre o qual interessa reflectir - e é importante reflectir - neste fim de século. Porque foi um século extraordinário, de mudanças, de transformações e de contradições que nos colocam beira do século vinte e um perante muitas interrogações. Reflectimos sobre o que vai ser, o que poderá ser o futuro. E, em relação à Arte, isso é notório sobretudo porque tem havido ao longo dos anos – até com acesas polémicas sobre a matéria - a ideia de que, quando aparece uma tendência predominante nova, ficaram esgotadas as potencialidades da criatividade artística. Eu creio que é impossível hoje prever o que é que o ser humano será capaz de criar no futuro. Portanto, a reflexão sobre a Arte em geral, sobre a criatividade artística, e sobre o valor social que representa a Arte (que também é um valor social), interessa considerar. Também pelo que traz à sociedade a obra de arte que chega até ela. A reflexão sobre isto é necessária ... e a minha reflexão, já o referiu, não se deu para escrever um livro. Foi através de muitos anos, já há muitos anos ... Eu já sou uma pessoa de bastante idade, vi muita coisa e portanto há muitos anos que me interesso pelas questões artísticas. Portanto aquilo que escrevi não decorre só da leitura, mas sim de uma observação atenta, cuidadosa e verdadeiramente apaixonada de muitas obras de arte que tive ocasião de conhecer ao longo da vida.

MS - O que define o valor estético da obra de arte?


AC - O valor estético .... eu creio que é um problema sobre o qual gastaríamos todos os minutos da nossa conversa (risos) ... Mas, para simplificar e até para sintetizar, muitas vezes se afirma que o valor estético está naquilo que de um modo simplista – e apenas para referir o termo mais utilizado -, está na forma. Ou seja, na cor no que respeita à pintura, e nos valores da cor e da composição, no jogo de volumes para a escultura, no som para a música. Aí, ou seja nos valores formais, é que está aparentemente o valor estético ... e contraria-se que, além disso, possa haver um tema ou uma mensagem, uma informação, uma opinião e uma visão do mundo e da sociedade. E mais: alguns teóricos diziam até que a pretensão de introduzir na Arte a opinião, o assunto, a informação ou a mensagem, empobreceria, por assim dizer, a forma. Afirmam que o único conteúdo da obra de Arte é meramente formal. Isto gera naturalmente uma grande polémica mas, na minha opinião, para além do valor base do Belo formal encontrado - e que depois o homem cria através da côr e volumes, no som, na linguagem ou no gesto -, existe algo mais que também introduz um elemento de valor estético na obra de arte. Isso pode-se citar em inúmeros exemplos. Eu tenho referido um que é mais perceptível em termos de informação oral: as Marchas Fúnebres. Existem as que choram os mortos, outras que lhes prestam homenagem. E há uma ... Há uma fantástica, não é? ... A 3ª Sinfonia de Beethoven que, para além de chorar os mortos, ainda exalta os vivos a viver e a continuarem a sua luta. Este é um valor acrescentado; para além do som existe ainda algo que está ali a elevar o valor estético daquela obra. Isto poderia multiplicar-se. Eu tenho, alíás, tido alguns encontros em que utilizo slides relativamente à pintura, à escultura e até à arquitectura. Poderia até introduzir o som e a música para melhor se ver se sim, ou não, se esta minha observação é correcta. Mas, na verdade, no valor estético há sempre esses dois elementos que são inseparáveis.

MS - O que é que desvenda o mistério da arte? Na sua obra existe uma frase: “explicar o mistério da Arte”. Que mistério é esse?

AC - O "mistério da Arte", é-o sobretudo pela diversidade de opiniões que há e pode haver em cada um de nós. Eu tenho a Arte como um valor humano e, portanto, todo o ser humano tem em si ..... uma necessidade de expressão artística. Se formos à génese da humanidade sabemos que o que nos distingue dos animais é o trabalho - já se sabe -, a criação de instrumentos e a produção de meios de sobrevivência; mas também a expressão artística. É uma característica do ser humano, independentemente do nível dessa criação artística. Eu estou aqui a conversar consigo e você de certeza que tem o seu potencial criativo pessoal e irrepetível, todos o temos e expressamos em graus distintos, quer seja cantarolando ou desenhando. Expressamo-nos num ou noutro plano, portanto isto indica que - havendo tantas contradições, tanta discussão em redor deste tema, porque há -. persistirá certamente um mistério. Mas, aqui, ponho a palavra mistério entre comas. Refiro-me a qualquer coisa de rico e profundo, sobre o qual tantas vezes há contradição de opiniões.

MS - Creio ser um pouco inevitável que falemos da importancia social e da intencionalidade de sentido que participam da obra de arte. Na constituição de um testemunho artístico e histórico, a articulação entre objectivo/subjectivo , sociedade/ego, pode acontecer de que modo?

AC - Eu creio que nenhum ser humano - a não ser que seja um tarzan criado isoladamente desde pequenino na floresta, ou na natureza - e, mesmo indo à génese da criação artística, todo o ser humano vive em sociedade - é independente da sociedade, mesmo que o queira. A sociedade influi sobre o ser humano, tal como o ser humano influi sobre a sociedade. Na criação artística, mesmo que o artista assim o suponha – e muitos o têm afirmado -, não são independentes da sociedade. A independência do social não existe. Não há uma total liberdade porque o ser humano está ligado à sociedade e expressa influências sociais daquilo que o cerca, sob as mais variadas formas . Portanto, há sempre ligação do Ser considerado individualmente e do Ser considerado no seio da sociedade e pertencente a uma classe social que o influencia, com os seus interesses e ideologias próprias, a sua intervenção na sociedade. Influenciam-no também as ideias e a ideologia no que respeita à Arte como superestrutura que é da sociedade, e agem sobre os artistas. Eu, quando digo artistas digo todos os seres humanos na criação artística, mesmo que não se chamem artistas.

MS - Como é que se explica que, ao longo da história – e lembro agora alguns exemplos – nem sempre a originalidade artística tenha acompanhado a vontade de inovação no plano social? O caso de Ezra Pound ou Céline, por exemplo...

- Bem, Céline ... é um pouco o Inferno. Voyage au bout de la nuit, creio que é esse o livro que está a citar, fez furor na época, não é? Tratando-se de uma obra com grande valor estético, porque o tem, numa linguagem cruel e pintando com crueldade o mundo... O assunto não é o que caracteriza mais a obra de Arte quanto ao seu valor estético. Pode haver uma obra que traduz um qualquer valor social que eu, por exemplo, enquanto crítico social posso considerar como negativo e ter, ainda assim, valor estético. É muito mau confundir a crítica que poderá ser feita ao significado social da obra de arte - ou àquilo que ela traduz acerca da sociedade em que é realizada -, com o reconhecimento, ou não, daquilo que poderá ser a sua qualidade estética. São dois princípios diferentes. Aliás, no livro que citou inicialmente há o cuidado de dizer: não se ajuíze o valor estético da obra por aquilo que pensa o seu autor. Quer dizer, o valor estético é independente do pensamento politico do criador. Pode haver um autor que seja – e agora vou utilizar uma palavra que corresponde à visão que tenho da sociedade – reaccionário, muito conservador, e que entretanto tem um alto valor estético na sua criação. Ao contrário, pode haver um outro que eu considere avançado e progressista no pensamento e, no entanto, ter um valor estético mais moderado, menos realizado, mais pobre. Uma coisa é diferente da outra.

MS - A propósito desta ligação entre pensamento criativo e ideologia, eu estava a lembrar-me de um caso português e da influência que Charles Maurras teve no Salazarismo. Qual foi a importância real do Novo Cancioneiro e da Presença?

AC - Eu creio que, tanto na Presença como no Novo Cancioneiro, houve escritores de grande valor e com uma obra realizada; num primeiro caso com uma evolução mais dificultosa, que é o Neo-Realismo. Inicialmente, aqueles que aqui em Portugal abriram essa corrente estética não estavam ainda suficientemente seguros e senhores da forma, da linguagem e da língua portuguesa. Portanto, as primeiras obras que vão aparecendo ainda manifestam uma enorme dificuldade de expressão linguística que depois vão aperfeiçoando. Desde os Raivéus de Redol, até ao Barranco de Cegos, há toda uma evolução, mesmo no que respeita ao valor estético. Portanto, neste caso houve mais o arranque de uma nova corrente, com uma evolução bem nítida posterior. Na Presença, havia grandes poetas que vêm na sequência da produção anterior e que hoje são alguns dos grandes nomes da poesia portuguesa. É o caso de José Régio e Casais Monteiro, entre muitos outros ... Ainda que o Casais Monteiro tivesse “um pé sim, um pé não”, entre um lado e o outro. De qualquer forma, aqui o que é mais significativo não é ver esses valores da nossa literatura como autores da Presença, do Novo Cancioneiro ou do Neo-Realismo. O que em geral mais se sublinha é a conflitualidade que existiu entre os primeiros que - num momento trágico da vida nacional, num momento de grande opressão, terror, perseguições e luta antifascista, num tempo que se preparava a I Guerra Mundial, a Guerra Civil em Espanha -, através da sua criação literária aconselhavam ao isolamento individual e à não participação nessa luta. No caso de José Régio existiu ainda uma forte condenação e uma recusa estética superior. Mas, o que é certo, é que esses valores eram contestados por todos aqueles que entenderam que se estava a passar uma grande tragédia e que, tal como o Ego, também o Povo, os explorados e as vítimas de guerra poderiam ser objecto de tratamento literário. Portanto, tomaram como sujeito - ou, se quiser, como sujeito da obra e objecto da atenção - não já o Ser intelectual isolado, mas sim o próprio Povo trabalhador. Há pouco citei o Redol e não foi por acaso... ele antes de escrever ficção fez uma monografia às aldeias do Ribatejo. Foi conhecer realmente como viviam os trabalhadores para depois conhecer e escrever o que veio a escrever em termos de ficção. Isto para dizer que a confltualidade entre uns e outros não é marca do seu respectivo valor estético. São antes marcas muito positivas na cultura portuguesa. O que os caracteriza é a visão da sociedade, o tema e o próprio sujeito das suas obras – o sujeito criador como tema. Este é um horizonte tão profundo quanto o é a Alma humana; mas o Ego não possui a abrangência do colectivo e do sujeito social dos Realistas e dos Neo-Realistas.

MS - A obra de Arte tem uma função de síntese e universalização do conhecimento?

AC- Não me parece, não me parece ... quer dizer, eu considero que a Arte assume tantas formas de expressão .... A obra de arte é originalmente afirmação e expressão de liberdade. Há um grau de intensa necessidade e espontaneidade nela. Também entendo que todas as limitações à sua realização são prejudiciais. E, aqui, não diferencio a natureza dos regimes opressores. A Arte é um grande acto de liberdade que me faz criticar analíticamente os poderes económicos ou da crítica, as censuras institucionais ou outras, que possam impedir a expressão artística. Condeno as imposições de poder sobre o artista que o forçam a fazer o que não sente ...

MS - Actualmente, qual é a função dos programadores culturais? Em Portugal que relação se está a criar entre o poder e a criatividade, arte e cultura?

AC - Eu não queria entrar muito por aí, porque não temos tempo nem espaço para aprofundar.... (risos). Mas penso que actualmente não há uma política de cultura em Portugal que corresponda às necessidades de estimular a criação artística, que não seja por alguns critérios muito estreitos e que pouca relação têm com aquilo que acabo de apontar. Portanto, esta política cultural ... se assim se poderá chamar, é fraca e poderia identificar nela alguns pontos nada elogiosos. Por outro lado, existem valores sérios e extraordinários nas artes em Portugal; mas a criação e a realização artística nas áreas da expressão plástica, músical e literária não encontram eco junto desta política.

MS - Dr. Álvaro Cunhal: para além de diversas referências, esta sua obra A Arte, o Artista e a Sociedade fala-nos do impulso da Revolução Socialista e afirma a criatividade dos povos como nascente fonte de Vida da Arte. Para além da ultrapassagem dos bloqueios e dos sistemas e da edificação da verdade, existem outros aspectos fundamentais dos quais gostaria que me falasse: a noção de autoria, a definição de arte popular e identidade, são apenas alguns exemplos.

AC(pausa) ... Bem, são problemas naturalmente complexos que, quando tratados em conjunto, dificultam o rigor na resposta. Mas creio que, além do mais, a expressão artística pode ser também a tradução de uma experiência. A ficção na literatura pode ser o correr da imaginação e do sonho do artista ao olhar a realidade; pode ser a tradução de uma experiência viva ou pessoal dos acontecimentos. É frequente a existência de uma experiência pessoal traduzida em Arte. Essa ligação entre a Arte e a Vida distingue-se como aposta das outras vertentes em que apenas existe uma deambulação autónoma em busca de valores base que não estabelecem relação com a experiência e a ideia da trasmissão de mensagem. No que diz respeito à criatividade popular, penso – e cito alguns exemplos nesse livro de que falou – que obras cimeiras assentam na criatividade popular. Os músicos de grandes obras , os maiores autores da literartura e do teatro, fundaram as suas obras inultrapassáveis no pensamento anterior do próprio povo. Essa ligação entre o Todo, a criatividade popular, e os instrumentos formais do artista parece-me indiscutível e fundamental para o entendimento da História da Arte. Digo-o, embora não tenha escrito nada sobre o tema. Nesse livro de que falou trato apenas de questões filosóficas de ordem estética.

MS - A arte pode ser um orientador político?

AC – Bem diz-se que alguns escritores são verdadeiros "engenheiros das almas” (risos)... Penso que qualquer posição que o autor assuma é legítima. Tanto direito tem alguém de contar a estória de um rei, quanto tem outro o de contar a de um escravo; tanto direito tem ele de contar a estória de um opressor, quanto tenho eu de contar a de um oprimido. Mas, não deixa de ser curioso que, segundo alguns, não faz política aquele que conta a história de um marquês, as dificuldades de vida das classes dominantes, dos imperadores. No entanto, se falarmos das classes proletárias e da luta comunista, estamos necessariamente a fazê-la: Porquê? Porque razão, se este foi também um problema, um facto económico e social, cultural e criativo? Porque são uns “engenheiros das almas” e os outros não? A influência sobre as almas existe sempre .... Até neste pequeno gabinete em que nos encontramos agora. Já não falo destas gravuras aqui nas paredes – que são realmente muitas ...–, mas sim nesta chávena e na colher que tenho entre os dedos ... Ainda bem que o Design já é uma cadeira instituída e reconhecida pelos sistemas de ensino. Porque a Beleza nos objectos do quotidiano, outrora anónimos, realmente existe. Basta pensar nos instrumentos de trabalho e nas peças de uso diário: já reparou na beleza de um ferro de engomar, por exemplo?!...


Fragmentos desta conversa foram transmitidos no programa de Mafalda Serrano A Forma das Coisas - Antena 2 |Entevista realizada em 25.04.97 e retransmitida nos canais RDP África e RDP Internacional em 13.05.05, por ocasião da morte de Álvaro Cunhal.

 

 
 

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