Sommer
Ribeiro

Sobre o Museu de Arpad Szènes e Vieira da Silva
Mafalda
Serrano - Gostaria que falássemos um pouco sobre algumas
etapas do seu percurso profissional. Creio que é importante para
contextualizarmos o momento presente no qual assistimos à consolidação
de um novo espaço museológico na cidade de Lisboa.
O seu ingresso
no Gabinete de Estudos de Urbanização da Câmara
Municipal de Lisboa e a sua colaboração no Plano Director
da cidade datam de inícios dos anos 50, exactamente quando aceita
uma colaboração com o Serviço de Projectos e Obras
da Fundação Calouste Gulbenkian. Em Novembro de 69 o seu
nome é indicado para a direcção do Serviço
de Exposições e Museografia; no Verão de 81 já
desempenha funções como Director do Centro de Arte Moderna.
O Outono de 94 acolhe a concretização de um projecto único:
trata-se de uma nova ligação a uma nova casa das artes
para Lisboa, cuja constituição legal é feita em
Maio do ano seguinte ...
Sommer
Ribeiro – Sim ... E o projecto já datava de 88,
embora projectado com contornos mais modestos: era apenas um Centro
de Estudos Arpad Szènes| Vieira da Silva.
Após a morte de Arpad, Vieira da Silva
quis compensá-lo pela sua generosidade; ele sempre se colocara
em segundo plano, coisa que Mª Helena sempre reconheceu. Isso levou-a
a insistir na criação de um Centro de Estudos
em Lisboa, depois de Abril de 74 – anteriormente tinha sido realmente
impossível ... Sabe, trata-se de uma história longa e
triste ... mas que culminou bem, se exceptuarmos alguns atrasos. Não
falo do projecto arquitectónico, não. Esse, Vieira da
Silva ainda conheceu e visitou. Sabe, ela morava mesmo a dois passos
do local onde o Museu está situado, ali no Alto de S. Francisco,
virando a esquina da Praça das Amoreiras. Bom, mas depois o projecto
foi ganhando força, a FLAD e a Câmara de Lisboa contribuiram
com a doação deste edifício onde em tempos ficou
o Palácio das Sedas. O próprio Dr.Perdigão e o
Dr. Mário Soares – em quem ela depositava imensa confiança
– também apoiaram a realização. Mas, na verdade,
MªHelena sempre duvidou da feitura do Museu: a prova está
na primeira doação feita à Fundação
Gulbenkian, dizendo que “se o Museu viesse a existir”,
esses quadros seriam lá futuramente depositados.
M.S
- De que modo surge o convite para a Direcção
do Museu Arpad Szènes|Vieira da Silva? Em finais dos anos 80
o Sr. Ainda estava ligado ao CAM ...
S.R – Poderá parecer-lhe pouca modéstia
da minha parte, mas não é decerto assim ... Foi a própria
MªHelena que me fez o pedido. Eu reformei-me em Abril de 93, estive
trinta e sete anos na Fundação Gulbenkian e toda essa
época me deixou bastante saudade. Entrei uma criança e
saí um velho. Mas foi uma bela fonte de experiências, tive
oportunidade de contactar os mais diversos artistas. Entre eles estavam
Vieira e Arpad, um casal de quem me tornei amigo e cuja amizade fomos
aprofundando, ao longo dos anos.
MS
– Peço-lhe que viajemos, então, no tempo.
A inauguração do Centro de Arte Moderna da Fundação
Calouste Gulbenkian (CAM) tem lugar há pouco mais de dez anos,
num quadro temporal marcado pela inexistência de um Museu de Arte
Moderna em Portugal. Aliás, essa foi uma das realizações
mais anunciadas do Antigo Regime ...
SR - ... E que nunca veio a realizar-se. Mesmo até
o Novo Regime o chega a anunciar e nunca avança para a sua concretização.
Num belo dia – e só depois de terem sido apresentadas diversas
propostas -, o Dr. Perdigão decide aceder. Foi numa reunião
de Agosto de 79. No dia 20 de Julho de 83 o CAM abriu as suas portas
ao público.
MS
– E,
de imediato, o novo local passa a afirmar-se como “espaço
vivo”, orientado para a “apresentação didática
da produção mais actual” – aqui eu cito alguns
dos recortes de imprensa da época. A inauguração
do Museu Arpad Szènes Vieira da Silva no Palácio das Sedas
escolhe promover a obra dos dois criadores. São duas propostas
diversas. Qual é o espaço e função do novo
Museu no Panorama português?
SR – São, de facto, duas propostas muito
diversas, embora Maria Helena quisesse que o seu Museu fosse um espaço
de abertura e pesquisa. Deixou-nos uma imensa correspondência
que aguarda publicação. Temos ainda um pequeno auditório
onde se farão conferências, debates, sessões de
cinema ou concertos; ela era uma apaixonada pela música. Trabalhava
sempre ao som de música. Este local será sempre um espaço
vivo, também. Agora, é evidente que não se podem
fazer milagres, em termos de espaço. Ainda bem que o espaço
tem assinatura de Carlos Mardel e está situado na malha de um
espaço bastante vivo do prédio do Marquês de Pombal
... Era um ditador, sem dúvida, mas criou na zona uma série
de escolas que depois deram nome às ruas. Felizmente, esta Real
Fábrica das Sedas ficou intacta. O outro edifício da Fundação
Arpad Szènes Vieira da Silva é já um edifício
dos anos 40, acerca do qual eu e o Arqtº Richard Clarke pensámos
bastante. Considerámos uma estrutura da qual Vieira gostava muito
e que, na altura, estava meio arruinada e posteriormente resolvemos
mantê-la. Não é bonita, mas faz a marca de um tempo.
MS
– Concretamente, quais serão as propostas apresentadas
ao público do Museu? O Sr. sempre defendeu a realização
de mostras de carácter antológico e não retrospectivo.
SR – A primeira apresentação orientou-se
para a divulgação de algumas das obras mais significativas.
Infelizmente, existe um período em que há algumas lacunas
– tentaremos solucioná-las ao longo do tempo, com alguns
coleccionadores que nos permitam adquirir obras de finais dos anos 40
e 50. Contamos com uma sala grande, de construção recente,
e mais quatro salas variáveis. A exposição não
foi totalmente fixa, exceptuando-se as obras fundamentais – estou
a lembrar-me de La Bibliothèque en Feu” ou o “Atelier”,
uma tela cheia de coragem e que marca o grande início de carreira
de Vieira da Silva.
É evidente que Jorge de Britop preencheui muitas das lacunas:
são vinte e duas obras emprestadas. Houve ainda um coleccionador
do Porto que deixou em depósito uma obra onde Arpad pinta a “sua”
paisagem espanhola. É uma obra curiosa que não tem nada
a ver com a realidade objectiva .,. Se calhar é muito mais Castela,
árida e dura.
MS
– Vamos fazer isso, exactamente: falar de uma saída
pictórica para o exterior ... A revolução expositiva
tem passado necessariamente pela transformação dos modos
de produção, recepção e apropriação
da arte.
SR – Exactamente. Nós não esquecemos
nunca que isso é extremamente importante. O panorama português
sempre viveu num certo marasmo e, aqui, temos que fazer uma certa distinção
entre o papel desempenhado pela Sociedade Nacional de Belas Artes e
o Secretariado Nacional de Informação: é que, com
todos os seus inegáveis defeitos, acabou por sublinhar obras
oriundas das mais diversas proveniências ideológicas. Eram
os dois pólos existentes e a Fundação Gulbenkian
surgiu como um oásis. Depois de 68, as relações
entre os artistas e o Estado português agudizaram-se, recordo-lhe
que chegámos a não participar na Bienal de S.Paulo. Depois,
o Estado finalmente desliga-se e, em 75, ocorre um período inesperadamente
difícil. Nessa altura, eu era comissário da Bienal e existia
uma certa corrente que se opunha à nossa participação:
S. Paulo era vista como um refúgio da direita portuguesa. Então,
eu e o Mário Ruivo pensámos que era necessário
ceder o flanco, o que resultou numa acesa discussão com o então
responsável pela Comunicação Social. Tudo terminou
com a ida, da qual sai premiado o Ângelo de Souza. A estadia e
o regresso foram compensatórios, portanto ... (risos).
MS
– A propósito do regresso a Lisboa, recordo-me
de Guy Weelen, biógrafo de Vieira da silva. Nas suas telas há
sempre o regresso à cidade. Lisboa “reaparece como um feitiço,
despontando por detrás de todas as cidades inventadas”.
É uma cidade ligada à representação do espaço
em movimento.
SR – É, sim. Isso é verdade e estabelece
ainda uma última ponte com os enquadramentos políticos
do Antigo Regime. La Grande Rivière
entrecruza nítidamente as perspectivas e a luz da cidade. Ora,
acontece que essa Lisboa que não tanto encantou Arpad, foi muito
presente em MªHelena, apesar de também ter sido perseguida
desde 1939. Na época ela era a mais jovem de um grupo de artistas
que reúnia nomes como Miró, Picasso ou Léger. Em
1956, quando viajavam com passaporte húngaro, são chamados
à Embaixada da Hungria para assinarem ela aceitação
da invasão soviética. Eles negaram-se a fazê-lo
e Arpad ficou apátrida em Paris. Depois do pedido de um novo
passaporte ao governo português, a resposta negativa chegou em
24 horas!...
Digo-lhe: aí criou-se uma ferida profunda que as primeiras reaproximações
custaram a sanar. Mesmo quando fizemos a retrospectiva de 70, no CAM
com Madalena Perdigão, ela só veio oito dias depois da
inauguração. Vieira da Silva ficou profundamente magoada
com o Estado português e evitou encontrar-se com o Presidente
Tomás ou qualquer outra figura do poder.
MS-
Um dos aspectos fundamentais da intervenção prática
de Arpad e Vieira na área sócio-cultural veio a acontecer
no Brasil. Eles seguiram para o Brasil nos anos 40 e chegaram a instituir
o seu espaço de atelier como um local de tertúlia e divulgação
das vanguardas europeias junto de grupos locais ...
SR – Sim, sim. Isso acontece mais no Brasil e em Lisboa. O atelier
de Paris foi vivido como um espaço muito mais reservado. Sabe
que, no Brasil, deus-se um fenómeno estranhíssimo: apesar
de uma não total adaptação ao quotidiano brasileiro,
é lá que acontece o grande salto na pintura de
Vieira da Silva. É lá que pinta Le Désastre,
um olhar sobre a temática da guerra que é doado à
nação francesa. É importante notar que essa obra
surge no meio de uma enorme ansiedade perante as notícias difundidas
pela Rádio, onde se dava conta da hipótese de um avanço
directo das tropas ana Península. Então, o regresso de
MªHelena a Paris já seria feito com a total aceitação
da crítica francesa e do público que recebem imediatamente
a obra de Vieira. Apesar disso, o grande reconhecimento geral só
tem lugar em 1961, com o Prémio da Bienal de S. Paulo –
o Brasil deixa essa grande marca na obra dela ... Um país onde
só contava com uma pequena dezena de amigos,. Mas que teve abertura
e coragem para reconhecer a sua obra. Vieira da Silva era extremamente
reservada; o Arpad era muito mais comunicativo.
MS
– “Ma femme chamada bicho”?
SR – É, isso mesmo! Mas era de uma imensa
generosidade, apoiando profundamente os primeiros bolseiros da Fundação
Gulbenkian.
M.S
– Sabe-se que Vieira da Silva sempre depositou grande
confiança em Manuel Cargaleiro, um autor que concebe toda a sua
obra em torno dessa orientação inicial e que a pintora
reconhece ser "um ceramista, profundamente conhecedor" do
seu trabalho ...
S.R. - ... Exacto. Cargaleiro transpõe o guache
"Le Metro" para azulejo, na estação
lisboeta da Cidade Universitária. Haverá ainda uma outra
estação criada por Arpad e Vieira , no Rato. E, aqui,
o mais importante será entender a aproximação das
suas obras num local ao qual estiveram sempre ligados; era lá
que passeavam e, quando ainda não tinham telefone, falavam um
com o outro de uma cabine que hoje foi reposta no mesmo local. Era aí
que namoravam.
M.S.
- O período pós-revolucionário possibilitou
uma reapropriação da obra de Vieira da Silva e Arpad Szènes,
após os incidentes de 56, com a escolha pela naturalização
francesa. O que define a nova relação entre a Arte e o
Estado, no caso de Vieira?
S.R. - Aí terá sido uma relação
marcante: a revolução de Abril encheu Vieira de satisfação
e será a pedido da Sophia de Mello Breyner que concebe os dois
cartazes d'A Poesia Está Na Rua. Isso
aproximou-a decisivamente do País. Regimes ditatoriais, para
ela, eram impossíveis.
M.S.
- Portugal é primeiramente representado sob o céu
de Paris: em "Pour expliquer Sintra a Arpad" é evocada
uma paisagem de origem diante de quem desconhece a costa atlântica.
Paris será depois "bruma cinzenta", segunda cidade
após o fascínio pela luz branca de Lisboa. Cézanne,
Paul Klee ou Giacometti - para além da sensibilidade impressionista
- parecem ter sido referências que contribuiram para afirmar Vieira
da Silva como autora decididamente universal. Qual será, afinal,
a nacionalidade desse nome?
S.R. - Ela admirou, de facto, os cinzentos e a construção
rígida de um autor como Garcia, a quem considerava como Mestre
apesar de só indirectamente o ter conhecido. Para além
da referência a Giacometti, poderemos ainda recordar Bissière
ou Léger, nas aulas da Académie de La Grande Chaumière.
Vieira atingiu hoje, precisamente, essa categoria de autora universal.
M.S.
- Imaginemos agora um reencontro com o olhar de Arpad e Vieira:
por certo não lhe perguntarei pelo casal - no dizer de Agustina
Bessa-Luis terão continuado o momento do reconhecimento com uma
espécie de "desesperação da eternidade".
Mas Arpad escolhe a representação da natureza em máxima
nudez e Vieira segue a retenção gráfica e distanciada
da estrutura urbana, quase um "quebrar de espelho".
A proximidade de percursos ocorre num espaço de irreconhecibilidade?
...
S.R. - De facto, ambos pintam cidades pouco reconhecíveis.
M.S.
- "Abstraccionismo lírico"?
S.R. - (Risos). Disso, Vieira nem queria ouvir falar,
ficava doente. Bom, nela existe um abstraccionismo quase construtivo
- estruturas horizontais mas que desaparecem no mito do azul e branco.
O negro aparece sempre nas linhas estruturantes de cada quadro.
M.S. - Estabelecer o diálogo entre a proposta
europeia dos dois autores e o panorama das artes do Antigo Regime poderá
implicar o anúncio de uma nova ligação ao surrealismo
ou ainda a divulgação de uma nova modernidade?
S.R. - Vieira é tardiamente revelada em Portugal...
ela faz uma mostra em 53 na Galeria de António Pedro e não
será convidada para a Exposição do Mundo Português.
M.S.
- Os anos 50 assistem ao desenvolvimento de matrizes infinitamente
desmultiplicadas, partindo do abstracto para a visibilidade com um "olhar
muítifacetado de abelha". Aí, Vieira da Silva parece
trabalhar um conceito de “cidades-síntese” inseridas
em arquitecturas atmosféricas, prismáticas.
S.R.- Sim, é verdade. E raramente sai delas. Posteriormente,
em Le Retour d'Orphée
existirá por certo menos construção, na verdade
é uma obra sentida como aproximação do fim
... (pausa). Sabe,
lembro-me de ter falado com ela uma última vez, em Dezembro de
91, pouco antes do seu desaparecimento. Ela encarava a morte com a maior
das calmas. Disse-me: "Já não posso pintar, os
braços já não me obedecem. É tempo de ir
ter com o Arpad". Falou-me com uma serenidade absoluta que
nunca vi em ninguém. Eu não sabia o que dizer.
M.S.
- O silêncio também acompanha a presença
humana na sua pintura... e a medida desta "omissão"
também existe nas perspectivas que sempre reenviam para si próprias.
Falámos já da inevitável proximidade estabelecida
entre as arquitecturas urbanas e a pintura de Vieira da Silva. Serão
cidades próximas de que tipo de narrativa? Universos pluricelulares
kafkianos, cidades borgianas, discursos de apaziguamento? Quais serão
as marcas do silêncio na sua obra?
S.R. - Sim, sim existem mesmo essas marcas... de Kafka e Borges sei
que era grande admiradora ... algumas das perspectivas serão
quase kafkianas... E de facto, este Museu mostra-o bem. Mas existe sempre
um ponto de saída, uma côr. Poderemos pensar que a angústia
humana acaba por pacificar-se na perfeição da sua escrita
pictórica. Talvez a pacificação seja afinal mais
uma das marcas da sua genialidade.
Fragmentos
de uma conversa transmitidos na Antena 2 - Programa
A Forma das Coisas | Publicação no Jornal
de Artes e Letras Évora e O Mais - Ano 2 -
1995