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Tchalê Figueira


Os Gémeos I e II © Tchalé Figueira

O Homem das Muitas Ilhas

De Tchalê Figueira guardo a memória do seu apego a um conceito essencial. Trata-se da ideia de liberdade - exacta, extensa e aberta - que sempre retorna com as conversas dos reencontros e atravessa cada pausa por entre palavras. Palavras soltas em redor das imagens. Em Lisboa nos revemos, ciclicamente, a compasso dos regressos deste poeta das muitas ilhas. Falamos então do seu trabalho e dos lugares que se cruzam na sua pintura, seguindo o ritmo cálido com que o autor pontua o nascer de cada palavra ou celebra pelo riso a invenção da surpresa.

"... Borboletas azuis vermelhas e outras / têm a grandeza do mundo no meu olhar (...)/ Por um instante renasci, e senti vontade de amar, foi um segundo ... com os olhos voei infinitamente / observando as aves voando. / Nostalgicamente, visitei o velho jardim dos sentidos onde os sentimentos se encontram/ e também se bifurcam, nas brumas do tempo".

Desta vez, o Tchalê falou-me ainda do seu último livro de poemas. As suas estórias são escritas-recorte do quotidiano entretecidas pela emoção do instante. É a memória das suas telas que me traz de volta a estas geografias dos elementos "Onde os sentimentos se encontram" . Eu sabia de algumas das suas etapas de vida e trabalho cruzando terra e mar, mas desconhecia muitas outras. Falámos como quem percorre albuns de fotografias, reacendendo emoções, alguns ritmos e melodias chegados de outros tantos rostos ausentes e lugares. Quase todos os sentimentos se fazem presentes na sua obra e foram reais sob a luz da tarde.

Mafalda Serrano – Sabes, Tchalê, ao observar algumas das tuas obras pensei, de imediato, no comentário de um galerista português com quem um dia conversava, a respeito delas: o Carlos Barroco . Ele aproximava a tua obra do universo chagalliano. E eu creio que concordo, sim. Especialmente ao considerar o sentido de sobre-naturalização do real através da côr, seguido por todo o seu trabalho. Entendo, por outro lado, que tu crias cenografias como propostas de uma alternativa à vida e ao real. Tu fazes o retrato do Homem.
Tchalé Figueira – Sim, eu sou um inventor ou um vendedor de sonhos, talvez. Isso, paralelamente ao trabalho de que falas: sigo retratando, no homem de olhos vazios, a personagem comum de alma velada ou mistificada no segredo das verdades que todos queremos, por vezes, esconder.

MS – A tua obra associa referências culturais e simbólicas, também. Conta-me como nasce um quadro, o que é que te move na direcção da tela e dos materiais?
TF – É um sentimento peculiar e inexplicável, tanto quanto a necessidade de comer, dormir ou fazer sexo. São sentimentos que o Homem tem e que o fazem partir ou chegar ... essa necessidade de criar coisas novas, de criar sonhos e utopias. Para mim a pintura tem muito a ver com isso: sonho, vida, desespero ou morte, todas essas coisas que afinal dão sentido à própria existência, eu acho.

MS – Trata-se de um impulso vital de sobrevivência, segundo dizes ... E, tal como referi quando há pouco falava das cenografias, depois esse Homem é tratado na tua pintura de um modo particular: um pouco como se compusesses teatros do mundo nos quais existem personagens cuja presença surge legitimada pela sua função de identificação de uma determinada identidade – ou da sua ideia -, pelo seu poder e acção de desocultação daquilo que nós mesmos somos enquanto sujeitos singulares de um colectivo. Existe como que uma arquitectura interna na própria organização estrutural das telas que confirma essa ideia de anfiteatro do mundo: um anfiteatro onde desfilam arquétipos, por vezes mostrando as máscaras ...
TF – Sim, eu acho que a minha pintura quase poderia ser chamada de ópera buffa, porque se trata também aí do exercício de um sentido crítico de ver as coisas, do próprio ridículo da humanidade e das suas destruições. Mas também há a parte lírica. A minha obra tem que ver com o sarcasmo, eu gosto de jogar com a humanidade.

MS – É engraçado, tu falares nisso. Porque, ao mesmo tempo, isso quase se aproxima da ideia própria à tragédia grega de uma encenação da condição humana a partir da coexistência dos discursos singulares e colectivos: um registo global que ramifica no sentido do sujeito. E isto poderia levar-nos a falar da própria arquitectura da tela estruturada enquanto espaço de recepção dos seres e dos próprios objectos quase enquanto “segundas naturezas” ditadas pela sua própria função simbólica e intertextual ... Um violão aqui não é apenas um violão ... e a cada rosto humano sabemos que corresponde, na tua pintura, uma determinada máscara.
TF – São várias as soluções de simbolização que uso, por necessidade ou invenção pessoal. Eu crio muitas mitologias na minha pintura. Tudo aquilo que invento e reinvento - cada máscara -, é símbolo dessa tragédia do humano, sim. Eu sou uma eterna criança a tentar reinventar, mas sempre com uma atenção muito especial à atitude das outras pessoas. Trata-se de uma espécie de regresso a uma infância racional no acto de representação, digamos assim. É uma forma de rebeldia ... eu acho que sou rebelde.

MS – Tu há pouco falavas da reabilitação dos mitos. Como é que tu geres essas simbologias, como é que se dá essa criação de sentidos, de intensificação dramática e objectual das posturas do Homem enquanto actor no universo mítico - e radical - do ser? São cenários de uma vida em devir? Cabo Verde é sinónimo de diversidade: são ilhas com múltiplos microcosmos narrativos.
TF – Cabo Verde será sempre uma referência, para mim, com os seus contos de bruxas e mitologias próprias a África, mesmo sendo um país muito especial de cultura crioula. Mas eu acho que naquilo que eu invento existe sempre a referência à própria essência do comportamento humano. Em qualquer sociedade do Mundo - e ao longo de milhares de anos da tragédia humana-, o homem cria o Belo e destrói em dez minutos aquilo que construiu. A pintura para mim é uma forma de transmissão da amargura humana que deveria ter uma função quase que religiosa. Que as pessoas fossem ver obras de arte, sim; mas com a conscência de estarem a rezar.


MS – Falas de catarse e alquimia a propósito da função social e psicológica da arte?
TF – Completamente. E é essa a verdadeira dimensão quase perdida da pintura, talvez por causa dos grandes marchands d’art que pessoalmente considero serem a escória de toda esta história da relação dos sujeitos com a obra. A arte é feita por pessoas e faz-se para as pessoas, é comunicação. A pintura terá sempre uma função social de protesto contra os males do mundo, contendo - por outro lado o seu lado mais belo.

MS – A par da intervenção temática e social, em termos técnicos quase existe um jogo de (des)construção do corpo na representação da figura humana, no teu trabalho. Utilizando até os referentes lançados pela pintura moderna, apropriando-te de referentes estéticos e históricos da cultura contemporânea e recontextualizando-os. A tal questão da memória do corpo e do seu desnascer, como falávamos no início.
TF – Sim, porque nada é novo nesta vida, tudo é retorno e esquecimento. Há em mim a referência constante de alguns pintores que estudaram profundamente essa tragédia do humano. Francis Bacon pelo lado da decadência do humano e Léger pela sua robotização do homem já sem tempo para amar. Dizer essas coisas na tela é tentar, numa utopia, recompor o Mundo.

MS – Por onde corre o sangue na tua pintura?
TF – É pela noção de ritmo que me movo e pinto,, sem dúvida. Quanto à côr, eu posso pintar a preto e branco, se quiser. Mas a côr é sempre a intuição de um momento. Eu pinto pela intuição e tento desmaterializar o que aprendi na Escola de Belas Artes, que me abriu alguns caminhos. Os trajectos somo nós que os fazemos no gesto de criar. As cores têm uma mera função intuitiva, não existem estudos.

MS – Na tua pintura existe sempre uma representação da dualidade. Nos binómios de equilíbrio/desiquilíbrio que definem a superfície de representação, por exemplo. Ou na referência a instâncias ímpares de representação de temas e figuras. Vértices de assimetria, para além do exercício escatológico e irónico. Isso tem que ver com a procura de uma síntese última, a "última palavra" dada pelo plano discursivo subjacente a cada imagem. O que é que procuras? Existem verdades filosóficas a desocultar?

TF - Sim, ... e quando falavas há pouco da deformação expressionista e lúdica do corpo, ela corresponde exactamente a uma forma de exposição e pensamento do real. Existem excepções, claro ... Como por exemplo quando rendo homenagem à beleza de uma mulher. Mas como os meus quadros são sempre muito polémicos e de forte intervenção social e cultural, eu penso que essa deformação corresponde vontade de denúncia da estupidez humana. Quanto ao plano discursivo, interessa-me particularmente o desenvolvimento de uma forma não conceptual de enunciar. Aliás, do conceptualismo gosto de citar apenas o nome de Barbara Krügr, uma autora cujo uso plástico da palavra acentua a intenção verbal de modo particularmente evidente. Talvez seja só isso que me interessa no conceptualismo, sempre pela via de uma clarificação dos conteúdos. Sabes, na verdade penso que o Homem é um ser falhado. A cultura ocidental provavelmente perdeu-se quando mecanizando, esqueceu o espírito; e isso não acontece com certas culturas asiáticas ou amero-índias, por exemplo, que – apesar da experiência da destruição -, conhecem um certo equilíbrio e respeito pelas origens. Talvez a solução para essa tal falha humana resida na vivência atenta. E intuitiva. Penso que é a minha necessidade de amar que me leva a entrar nesta angústia perante o erro humano. Há sempre essa dualidade entre o amor e o ódio pelo que somos.


MS – Como é que as tuas próprias referências familiares jogam no teu modo de pensar e sentir, já que tu próprio possuis uma boa parte de sangue índio e outro tanto proveniente das muitas ilhas?
TF – Sim, eu ... diria que sou uma espécie de protótipo do universalismo (risos). O meu bisavô era português, da Madeira. Do outro lado tenho sangue índio e negro, junto todos os continentes dentro de mim e isso é uma forma de estar consciente que me obriga a ser tolerante perante qualquer tipo de homem. Não existem raças porque qualquer ser humano terá necessariamente um aspecto diferente. Isso para mim é francamente irrelevante e apenas serve para enriquecer as geografias da alma.


MS – Tu nasceste no ano de 1953, em S. Vicente. Para além daquilo que possa caracterizar o contexto geográfico e político do lugar e do tempo, uma determinada identidade cultural, existe ainda uma tradição expressiva na tua família ligada à literatura e às artes plásticas. Queres falar disso?
TF – É isso, precisamente, até porque em Cabo Verde nunca tive a percepção da componente de diferença na minha identidade. Foi depois que vivi na pele a experiência do racismo e da exclusão. As crianças nunca têm esse olhar de fora sobre as coisas, são ainda completas.

MS – A tua saída de Cabo Verde correspondeu a um segundo nascimento, como um segundo corte?
TF – Completamente. E à descoberta de algumas coisas feias deste mundo.
MS – Falemos de memórias, então. Como é que começaste a pintar?
TF – Eu acho que sempre pintei. Aliás - e a propósito -, eu tive um professor de escola no tempo colonial que sempre disse que eu jamais seria pintor. Já aí eu tinha reacções, intervenções muito fortes nas aulas de pintura, lembro-me que era rebelde antes de retirar-me de Cabo Verde e esse homem era cruel. Tudo se passava no cenário de frustração surda próprio às escolas coloniais, imagina ... onde um burocrata esquece o sentido da pedagogia. Mas creio que, de algum modo, esse homem se enganou (risos) ...

MS – O que é que te afastava da lógica académica e cultural vigente? Quais são as tuas paisagens da memória de S. Vicente, na altura?
TF – S. Vicente era uma ilha muito próspera que vivia da crise da guerra israelo-árabe, nos anos 60, precisamente. Os barcos regressavam ao porto do Mindelo e havia muita vida, festas, marinheiros e prostitutas. Tudo isso ficou no meu inconsciente e é isso que retrato de novo, mas agora talvez com uma nota de decadência isenta de saudosismo. Era também uma cidade portuguesa, claro, com soldados e militares, onde havia sempre aquela tensão entre o colonizado e o colonizador. Francamente, eu tinha uma certa raiva dos portugueses, para ser completamente verdadeiro. Isto porque achava injusta a presença abusiva de estranhos na minha casa. Até me lembro de uma cena passada com o meu pai num dia em que houve briga entre portugueses e caboverdeanos. Eu desconhecia o conceito de regime ditatorial e comentei ingenuamente ao jantar “ – Mas porque é que há isto? Porque não vão para a terra deles?” ... Foi mera intuição. E o meu pai respondeu: “Tu nunca digas isso na rua, senão vêm buscar-nos e somos presos.”

MS – Essa história poderia também inscrever-se num quotidiano português em pleno Antigo Regime ...
TF – Exacto. E foi isso mesmo que me fez partir. Só quando saí de Cabo Verde tomei consciência da verdadeira dimensão da experiência da ditadura e da própria intervenção portuguesa noutros lugares onde, aí sim, existia a Guerra e a Morte. Isso foi em 1970, quando o meu pai me manda para a Holanda e onde vivi durante quatro anos. Estive a navegar durante uns dois anos, eu acho.

MS – Navegar ... como aconteceu isso?
TF – A verdade é que nunca pensei ser marinheiro. Fui para a Holanda porque queria ser ... o meu pai mandou-me partir aos dezassete anos, antes da mobilização militar, por causa da Guerra. E depois eu estava farto da escola, queria evadir-me e fui ao encontro de um tio na Holanda, embora a ideia fosse ir estudar para a Universidade Católica de Louvain, na Bélgica. Enfim, essa história toda ... mas eu estava-me nas tintas para tudo isso e fui navegar para ver o Mundo.

MS – Porque tinhas ilusões, passaste por onde?
TF – China, Austrália, Japão. Venezuela e Estados Unidos; enfim, estive no continente africano que desconhecia. Depois permaneci dois anos na Holanda em dolce fare niente. Foi então que tive necessidade de saír e fui para a Suíça ter com a minha irmã que já lá vivia. Na Suíça tive oportunidade de conhecer alguém que era dado às artes e que despertou em mim tudo aquilo que eu queria exprimir.

MS – Referes-te à tua experiência intensa de Basel, onde trabalhaste de 74 a 85?
TF – Exacto, é nesse período que eu conheço essa pessoa e que viajei para Paris onde tinha amigos e irmãos. Acho que despertei realmente para a vontade de criar quando visitei o Louvre pela mão de uma amiga e vi um enorme painel de Delacroix. Recordo-me apenas do tema, não do título da obra. Da sua imensidão e tragédia, das figuras caíndo de um precípício em que uma mão as agarrava pelo cabelo, não sei. Era qualquer coisa de uma enorme intensidade que me fez começar os primeiros esboços, de regresso a Basileia. De início achava muito maus todos aqueles trabalhos.

MS – Começaste pelo desenho?
TF – Sim, mas claro que não dominava muito bem essas técnicas. Usava lápis, carvão, de tudo. E essa pessoa que me acompanhava incentivou-me a ir para a Escola de Belas Artes, onde consegui passar a prova de acesso.

MS – Isso foi de 76 a 79, portanto. Como é que decorreu a tua experiência académica na Suíça em termos de ligação ao próprio programa e corpo docente da Escola e da aquisição de um raciocínio plástico próprio?

TF - Existiu tudo isso como dizes, a estruturação de um pensamento próprio ligado à convivência. Na Suíça dos anos 70 a presença de um caboverdeano era algo inesperada. Eu era um bicho raro perante quem as pessoas tinham certas atenções, afecto e carinho e criei uma grande amizade e conivência com Eric Schaff e Fedier, meus professores de desenho e pintura na época. Essas pessoas deram-me muita força, isto para além das amizades que fui criando nesse novo espaço. A minha primeira exposição foi na casa da minha ex-mulher – porque essa pessoa que estou a referir sempre e que me deu todo o apoio é ela - , num dia em que me achei finalmente maduro para mostrar aquilo que fazia. Demos, então, uma festa nessa casa não muito grande, para a qual convidámos muitas pessoas e onde juntámos alguns artistas mais ou menos conhecidos no meio. Digamos que, em termos objectivos, foi uma grande desilusão, porque os artistas nem olharam para nada .... são muito vaidosos os artistas, como sabes (risos) ... e essa foi a minha primeira experiência de decepção com a pintura. Mas, felizmente, a perserverança venceu tudo ...

MS – Como é que foi decorrendo a definição do teu discurso plástico em termos estéticos, técnicos ou temáticos?
TF – No princípio, devido às minhas inseguranças no domínio do desenho, tentei entrar no domínio da abstracção, o que não durou muito tempo.

MS – A vertente de geometrização no teu trabalho está, no entanto, ainda bastante presente, hoje em dia. Tanto no entendimento do corpo como no tratamento dos valores espaciais das tuas obras, não concordas?

TF - Sim, é um trabalho de muitos anos, ao qual se seguiu o retorno ao figurativo – mesmo tratando-se de um figurativo muito primário. Isso tem que ver com pintores como Jean Dubuffet.
MS – Ou com Cèzanne, pela intensificação do valor objectual dos elementos sobre a tela e pela tensão criada entre os planos de representação. Essa espécie de desdobramento por tensão dramática na concepção do espaço interno da tela. Porque eu penso que existe sempre uma enorme tensão física e muscular nos teus trabalhos.

TF – Pois, aquilo a que os alemães chamam spanung ... tal como se algo pudesse explodir, rebentar. Foi sempre essa a grande força da minha pintura, esquecendo todas as teorias e expressar com toda a sinceridade o que sou e sinto. Essa é a base fundamental de tudo aquilo que o ser humano faz.

MS - Tu falaste-me um dia de um período de trabalho caracterizado pelo quase fechamento da côr, de uma fase de natureza dita existencialista. Talvez por época de um segundo corte, após a tua partida de Cabo Verde.
TF – Eu acho que isso acontece na passagem para os anos 80, algures. Foi um período muito curto em que sofri muito porque me faltavam as cores do céu, o mar. No princípio, quando comecei a trabalhar na Suíça estava tão preocupado com o academismo que não me idealizava ainda como autor, apenas como aluno e esse período de tomada de consciência do ser artista – com tudo o que isso implica em termos de postura e filosofia de vida, ou percepção das coisas -, correspondeu à angustia de uma perda, ao sentimento absoluto de desenraízamento. Isso correspondeu a um despertar muito doloroso da identidade. Do ser emigrante, também ... (pausa). A dor enquanto preço da aprendizagem.


MS – O teu trabalho tem a ver com a própria conta-corrente dos dias, onde também religas coisas: pintura, poesia e música, por exemplo. Isso e a conjugação do verbo amar para a reabilitação do conceito de Homem.
TF – Talvez a minha vocação correspondesse afinal à que se encontra subjacente ao conceito de humanista. Apenas não falo aí da religião, que para mim não é muito simpática. Não sei se sou agnóstico, digamos que acredito em qualquer coisa. Quando não existem especulações em redor dos poderes religiosos, respeito as pessoas crentes. Quanto a mim, não sei.


MS – Como é que tu lidas com os valores intitucionais? Igreja, Estado ... Política?
TF – (risos) ... essa é uma boa pergunta. A Igreja é uma chatice enquanto grande instituição ... Falar do Bem e do Evangelho frente aos dólares do Vaticano? O Papa vive bem e não sai para a rua como Jesus Cristo. E isso corresponde a uma aldrabice qualquer ... os políticos, esses são um mal necessário. O Homem não está preparado para assumir a segurança da autonomia sem destruir o Outro.

MS – São, então, necessárias as normas que correspondem à Morte da Utopia?
TF – Eu acredito, por exemplo na instituição da amizade entre o Homem e a Mulher. Acredito que eles podem compartilhar, terem filhos. Eu não sou um misantropo, gosto das pessoas e do mundo, englobando até os mais canalhas. Porque penso que há uma razão para o mal que não passa pela genética, isto se quisermos fazer aqui uma análise freudiana. Isso depende de outros factores.

MS – Numa primeira instância o medo é sempre prefiguração do Mal, da Morte?
TF – Absolutamente, o Medo traz o Mal. E ele corresponde sempre ao medo de morrer. Eu confesso que vejo isso muito freudianamente, talvez pela minha educação germânica, os meus amigos acusam-me de excesso de análise. Digamos que esse modo de pensar corresponderá, talvez, ao tal desdobramento de planos de que falávamos e isso estrutura cada quadro.


MS - E como foste tu religando as geografias do teu percurso antes da decisão do regresso a Cabo Verde , até lá tu tinhas exposto inicialmente na Suíça, mas depois surges no Museu das Artes Africanas e Oceânicas de Paris, quando já te encontravas de novo a viver no Mindelo ....
TF – A função do artista é sempre o exercício de um modo de dar. É assim que trabalho e vivo, desde sempre. Não há melhor modo de integração humana do que a fidelidade a esse mesmo conceito de integração porque só isso possibilita a recepção e coerência do sujeito e da obra, a posteriori. Mas depois, a muitos níveis na arte e na vida, há pessoas tacanhas e estúpidas que não se preocupam com certos valores morais primários, como os de gostar, amar, partilhar. Porque tudo aquilo que vivemos irá irrevogavelmente acabar e, se vivemos teremos de partilhar sempre.

MS – Toda a matéria tende para a dissolução, dizes tu, agora. E eu acrescento que existe a confirmação dessa sobrevalorização dos valores espaciais, no teu trabalho. Se quiseres, faço-o ainda de outro modo: digamos que se tratará talvez de uma atmosfera global de mutação que nos leva a pensar a tela enquanto habitáculo. Como se o valor aéreo da representação nos permitisse a vivência por dentro da própria pintura. Uma hipótese de transfiguração, de expansão do corpo através da visualidade. O olhar dando passagem à experiência física da pintura ...
TF – Isso parece-me muito interessante, porque um amigo escritor que habitualmente me visita no atelier e que um dia escreveu um conto que fala nisso. Nessa história existe alguém que supostamente sou eu, o artista, que estou no meu espaço com as minhas obras. Durante a noite as figuras saem das telas e conversam, então, comigo num registo íntimo de sonho e realidade indistintos. Essa ambiguidade espacial corresponde a uma ambiguidade de sentimentos acordada pela pintura enquanto porta de abertura, de passagem. De visita e transcorrência.

MS – Entendes a pintura enquanto domínio de comunhão com o sagrado, espaço incluso de abertura e recepção, suporte de transfiguração do Homem que a contém e nela está contido? A pintura enquanto modo de reabilitação dos valores lúdicos e telúricos.
TF – Pode ser o tal espaço da totalidade. Quem sabe senão o regresso ao mais primitivo dos rituais humanos, onde também se combatem todos os tabus. A pintura tem a ver com essa ideia de retorno, sim, tentando chegar ao mais profundo da nossa existência. Corresponde a uma reconquista do universo perdido das intuições, da dimensão animal. É também uma forma de rezar e de compartilhar a minha reza com os outros, da minha parte.

MS – O exercício pictórico corresponde a uma estratégia de pacificação e ao desocultar da identidade, assim sendo... Mas isso também implica o esquecimento da singularidade individual; não por via da negação da identidade mas sim por uma espécie de "desnascimento". Uma das vias seguidas pelo teu trabalho é a da representação de grupos sociais inscritos em temas inerentes à esfera pública ou privada. Existe, por outro lado, uma tela intitulada Diógenes no Mindelo que traduz um pouco uma visão global da condição humana, não é assim? E fá-lo novamente reavaliando o próprio conceito de espaço de representação, talvez apostando numa representação da espacialidade pelo universo infindo do inconsciente.
TF – Sim, essa é uma tela supostamente entendida como um preto e branco, mas que tem um azul do mar. O que poderei dizer dessa tela passa, de facto, muito pelo lado simbólico. Diógenes, o cínico com a lanterna, será também aqui uma figura do universo caboverdeano; isto para além de poder ser interpretado como um auto-retrato. Entendo que aquilo que cada um faz corresponde normalmente ao seu próprio retrato e essa será talvez a visão que tenho de mim mesmo, no Mindelo, à procura de um Homem justo. Claro que poderei não ser apenas eu, essa obra poderá retratar o Homem na realização da sua potencial grandeza – porque a figura é maior que a montanha e todos os outros elementos –, no alcançar de uma condição espiritual harmónica que lhe permita dispensar a lanterna e o próprio objecto.

MS – Existe uma busca de síntese final no teu trabalho, após a ultrapassagem da noção de fronteira? Digamos talvez que “a condição – ou o amor – que nos tem é aquele que também nos mata”? Existem, ainda que por vezes alternadamente, pólos de descentramento da leitura visual, nas tuas telas: forças centrípetas ou centrífugas ...
TF - Exacto (risos) ... Mas isso corresponde até ao meu próprio percurso, à minha própria visão do destino humano.
MS – Cada uma das tuas obras reflecte então etapas desse teu modo de pensar o real numa espécie de exercício da transversalidade consciente/inconsciente. E quanto ao teu encontro com outros modos de representar e sentir o destino humano, nomeadamente quando trabalhavas na montagem de exposições de outros autores? Como é que isso acontece, essa mudança de pele ....
TF – (Risos) ... Ah, eu conheci muita gente, o escultor espanhol Chillida, alguns pintores alemães como o Imeendorf, o Enzo Cook – italiano da transvanguarda -, quando ele realizou lá uma exposição. Eu ajudava a montar exposições para ganhar dinheiro e cruzei-me com pessoas incríveis, entre as quais o Director do Museu de Arte Moderna de Frankfurt, o Jean Christophe Ammann ...
MS – ... E participaste numa mostra colectiva de homenagem ...
TF – Sim, sim participei. Ele é um homem internacionalmente reconhecido no mundo das artes e foi ainda a pessoa que realmente me lançou enquanto artista, quando me expôs nos anos 80, numa colectiva realizada para a Kuntsthalle de Basileia, ainda na Suíça. Foi um dos promotores reais da minha carreira artística transmitindo-me um enorme incentivo, à semelhança do trabalho que desenvolveu com muitos e muitos outros artistas, dada ainda a sua enorme sensibilidade. Mas conheci as tais outras pessoas anónimas, oriundas de todos os cantos do mundo, porque Basileia era também uma cidade pequenina onde a “família das artes”, chamemos-lhe assim, estava sempre mais ou menos junta. Passavam pessoas interessantes por Basileia: actores, actrizes que ainda hoje conheço e com os quais partilhei uma vivência próspera. Continuo a ser amigo de muitos deles e a corresponder-me ... Eu acho que já fiz muitas coisas lindas nesta vida, sabes? Só espero continuar a poder vivê-las.

MS – O que te levou de regresso a Cabo Verde, quando tomas a decisão de viver e trabalhar no Mindelo em 85?
TF – Isso aconteceu por duas razões. Em primeiro lugar – e depois de tantos anos na Suíça -, senti que já não aguentava mais, comecei a sentir-me quase que depressivo no seio daquele modo de estar dos suíços. Por causa do clima, também, para além de outras coisas. Depois, decidi regressar ao Mindelo por sentir que era aquele o momento certo para voltar e mostrar o que fazia, revendo a minha terra já com um certo percurso feito e estabilidade. De algum modo, já tinha ganho algum reconhecimento na Suíça e seria possível voltar a Cabo Verde com algum trabalho feito, dizer: “Meus senhores, eu fiz isto e quero abrir um atelier de formação para crianças ou até mesmo adultos ...” Essa era, na altura, toda a minha ideologia, foi isso que pensei fazer em Cabo Verde e que infelizmente nunca foi realizado. No entanto, não me arrependo pela decisão tomada, vivo bem lá.

MS – Mas tu estiveste cerca de seis anos sem expôr, não foi? Tu voltas a fazê-lo na Praia quando és capa da Revue Noire, em Setembro de 91.
TF - Pois, exacto. Olha, esses foram os tempos das vacas magras do regresso a Cabo Verde com uma pintura moderna que o público local desconhecia – é preciso não esquecer que lá, em Cabo Verde, não existem instituições de arte ou Museus e essas coisas todas. Infelizmente, ainda hoje a ideia dominante de arte centra-se naquilo a que poderemos chamar de realismo e no decorativismo sendo que eu tive dificuldades em singrar. Mas a preserverança faz mesmo tudo.

MS – Em tua opinião, quais serão os parâmetros fundamentais pelos quais deverá reger-se o trabalho de conscencialização, divulgação e promoção da expressão plástica e artística em Cabo Verde? Isso passaria necessariamente pelo repensar da própria acção institucional em termos de consciencialização dos referentes culturais da tradição e da contemporaneidade?
TF – Bom, eu acho que tudo isso passa pela própria disponibilização e sensibilidade do Ministério da Cultura, isso é fundamental. Em primeiro lugar, ouvindo, escutando as opiniões dos artistas, dos músicos, etc.; em segundo lugar, apostar na criação de um Museu de Arte Contemporânea – caboverdeana e não só; por último, acho que seria importante a existência – pelo menos na Praia que, com os seus milhares de pessoas é a capital do País -, de uma Galeria de Arte que poderá, com o tempo, trazer os artistas de Cabo Verde para a Europa. Por exemplo, para a Feira de Arte Contemporânea de Lisboa ou para a ARCO de Madrid, mostrando com isso que o País tem a sua arte e os seus valores. Isso deveria ser feito com os autores que estão em Cabo Verde, mas também com os que estão na diáspora, aqui em Portugal inclusivamente. Essas, em minha opinião, serão as coisas mais pontuais, para além da promoção de debates sérios entre artistas, jornalistas, escritores, políticos também – porque não? -, na televisão e na rádio caboverdeana. Aliás, enquanto meio de comunicação, a rádio tem no País uma imensa força.

MS – Isso passaria ainda pela multiplicação das próprias instâncias de criação, refiro-me aqui aos criadores e também às próprias condições das práticas artísticas. Tu falaste um dia do sonho que te fez regressar: a criação de um atelier de formação.
TF – Sim, mas agora talvez apenas como consultor. Claro que daria a minha ajuda, mas acho que existem pessoas com a formação e capacidades certas para tomarem conta desse tipo de projectos. Cabo Verde tem enormes talentos, existem jovens artistas promissores; mas o que se passa é que toda essa força criativa carece globalmente de orientação estética. Criam-se, portanto, muitas fantasias também devidas à inexistência de um balanço efectivo de valores. Isso dá origem a alguma vaidade e pretensiosismo num contexto onde não existe crítica de arte. O caboverdeano, em minha opinião, tem por vezes o defeito de tecer críticas sobre todas as coisas, e isso é uma grande chatice ....(risos) É como a velha história do gajo que olha para o meu quadro e diz: “ ... ah, eu não percebo nada de arte, mas eu acho que ...”. Eu respondi-lhe: “Não, tu não achas nada. Se não percebes nada de arte, cala a boca!”. Penso que temos que há que acabar com esse “acho que” e fazer, embora eu infelizmente não conheça ainda nenhum verdadeiro crítico de arte em Cabo Verde, com a respectiva formação estética e académica que lhe permita separar o trigo do joio. Arte pimba e música clássica não podem ir no mesmo saco.

MS – Tu falaste na necessidade de activar pontos de manifestação cultural e artística desde a capital da Praia, mas também já disseste que S. Vicente e Santo Antão são as ilhas que mais têm influenciado o teu trabalho. Ele cruza, no conceito de trabalho e vivência artísticos, diferentes planos e suportes. Diferentes leituras e escritas: a poesia e a música para além da pintura num contexto de vida partilhada. Um dia eu disse-te que percutias a côr, aquela que tu mesmo poeticamente defines como “a intuição do instante”.
TF – Eu acho que sim, até porque o reactivar das cores correspondeu ao regresso a Cabo Verde. Talvez tenha a ver com o correr do sangue e com toda uma alegria do regresso às raízes, depois de tantos anos de desenraízamento. E ter essa felicidade ocasiona depois uma espécie de explosão das cores do mundo no universo. No entanto, apesar disto, as minhas últimas obras são a preto e branco, o que já implica uma reinvenção da própria noção de côr e das suas conotações psicológicas tradicionais. Para mim o cinzento ou o castanho já não são mais cores depressivas, são apenas meros materiais utilizados no meu trabalho.

MS – Matérias de inscrição, de escrita?
TF – Exactamente, depende da reflexão do momento. São caligrafias diferentes para cada momento.
MS – A tua pintura assume uma vertente narrativa, qual é a tua linguagem de valorização do instante? Qual é o lugar do discurso por detrás do corpo da imagem? Existe um gesto de desdobramento?
TF – Partindo do valor da ideia, eu acho que há momentos na concepção da minha pintura a que eu chamo de momentos de ponderação que acontecem quando estou num bar a beber um copo. Ou quando escrevo, sim. A minha escrita e as minhas imagens nascem sempre de momentos muito pontuais que reconheço como momentos de uma certa tristeza e melancolia. Porque são instantes em que estou a conviver com pessoas cheias de alegria. Exactamente, a tal ideia de desdobramento e de alternativa ao real que assenta, por exemplo, na consciência da solidão humana. Todos nascemos e morremos sózinhos, para além da existência de uma preocupação real com os instantes de participação e convivência humana, sentindo-me gente e estando com gente. Nesta utopia de harmonização última do Homem, há sempre a consciência da solidão do artista dada até pela observação crítica, alucinante, dos comportamentos das pessoas e de mim mesmo enquanto participante em todas essas estórias. Isso encontra-se por detrás das minhas imagens e nalguns poemas, por exemplo, num em que eu digo “apaixonei-me por uma menina num bar” e mais não sei o quê. Posso dizer-te que sei exactamente onde e quando escrevi esse poema nascido de um momento de solidão completa; apaixonei-me por ela pela simples razão de ter sentido que, algures, nós dois estávamos solidários na mesma situação. E então, são todas essas nuances e reflexões que me levam a criar esse universo pictórico e poético.

MS – Na tua escrita existe o recurso a um valor de fusão que por vezes não encontramos tão imediatamente, na tua pintura: existe um olhar sem medo perante a tal dissolução do Eu que quase possui um oposto geométrico na tua pintura.
TF – Sabes, eu acredito que todos nós somos Drs. Jake and Mrs Hyde, e lá estamos a regressar à ideia do Bem e do Mal, outra vez. E eu acho que na escrita existe esse lado muito mais sublime, na pintura existe a violência ou até a raiva de toda a existência humana.
MS – Tanto na escrita quanto na pintura, o uso do ritmo é fundamental nesse tal conceito do espaço de expressão que tu referias como spannung ...
TF – A ideia de ritmo, pintura, poesia e música, sim. Está tudo ligado e é tanta coisa ... eu sou uma pessoa muito intuitiva, sabes? Eu toco percussão com um grupo de música tradicional caboverdeana que propõe algumas ideias novas, digamos assim, numa certa avant-garde. É uma coisa que faço com o maior gosto, nem sempre com o tal espírito do blues, nem nada que se pareça!... (risos) Eu sou aquilo que sou e acho-me o fruto de qualquer coisa produzida por um homem e uma mulher. Disso tudo, criei a minha própria identidade que é aquilo que todos procuramos criar e conhecer, enquanto Vida e Função próprias desenvolvidas até à Morte. E o bom de tudo isso reside na possibilidade de deixar algo positivo para a posteridade, assim como quando estive em Madrid a ver As Meninas de Velasquez, perguntando-me: “Como é possível, depois de tantos anos vejo este quadro e fico completamente fascinado?”. Quer dizer, este homem deixou um património para a humanidade e isso é fantástico.

MS – Porque tens medo de voar?
TF – Olha, foi um trauma qualquer. Eu já tinha andado de avião várias vezes antes e uma vez aconteceu uma coisa qualquer, lembro-me que foi em 77 quando ia para Cabo Verde, fomos via Guiné-Bissau – ainda era aquela história do pós-25 de Abril -, e algo se passou que não foi nada de grave mas que me tocou, desde aquele dia. Tenho, sim essa aversão aos aviões que é também um medo da Morte. Eu acho que ... lembro-me de cenas da minha infância, de sentir medo, perdi a minha mãe muito novo, por exemplo. Há uma relação muito profunda com isso, o sentir-me ... perder o chão, literalmente. É esse Medo que está latente nos meus quadros, que se nota a par da representação da tragédia humana e da Morte. Nunca pelo lado do fascínio, mas sim pelo mal que me faz sentir. Esse medo da Morte que será sempre medo da Perda, sim, e que eu vou tentando reequilibrar, levam a minha pintura e a minha poesia para o campo de um gesto de exorcismo dos fantasmas. Isso, a par da expressão do Belo e do Horrível; do prazer de viver e criar, de estar na vida. Todo o homem é, pelo menos durante cinco minutos por dia, um verdadeiro imbecil; isto já o disse alguém. Mas o importante será não ultrapassar muitas vezes o limite desses cinco minutos, por via de uma maior consciência da razão de ser da Vida. Nós não somos perfeitinhos como os insectos e as abelhas: o Homem chora, cozinha e lava fraldas. E tem de procurar o equilíbrio de todas essas coisas. A perfeição total não existe, como sabemos. Ou então, se existe, é para os insectos, que lá terão as suas razões aparentemente incompreensíveis e quase que invisíveis, aos nossos olhos".

| 2001 © Mafalda Serrano|

Todas as imagens usadas com permissão dos autores

Os Gémeos I e II | acrílico s/ tela | 1983 ©Tchalê Figueira

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