Mafalda
Serrano – Sabes, Tchalê, ao
observar algumas das tuas obras pensei, de imediato, no comentário
de um galerista português com quem um dia conversava, a respeito
delas: o Carlos Barroco . Ele aproximava a tua obra do universo chagalliano.
E eu creio que concordo, sim. Especialmente ao considerar o sentido
de sobre-naturalização do real através da côr,
seguido por todo o seu trabalho. Entendo, por outro lado, que tu crias
cenografias como propostas de uma alternativa à vida e ao real.
Tu fazes o retrato do Homem.
Tchalé Figueira – Sim, eu sou um inventor
ou um vendedor de sonhos, talvez. Isso, paralelamente ao trabalho
de que falas: sigo retratando, no homem de olhos vazios, a personagem
comum de alma velada ou mistificada no segredo das verdades que todos
queremos, por vezes, esconder.
MS
– A tua obra associa referências culturais e simbólicas,
também. Conta-me como nasce um quadro, o que é que te
move na direcção da tela e dos materiais?
TF – É um sentimento peculiar e inexplicável,
tanto quanto a necessidade de comer, dormir ou fazer sexo. São
sentimentos que o Homem tem e que o fazem partir ou chegar ... essa
necessidade de criar coisas novas, de criar sonhos e utopias. Para
mim a pintura tem muito a ver com isso: sonho, vida, desespero ou
morte, todas essas coisas que afinal dão sentido à própria
existência, eu acho.
MS
– Trata-se de um impulso vital de sobrevivência, segundo
dizes ... E, tal como referi quando há pouco falava das cenografias,
depois esse Homem é tratado na tua pintura de um modo particular:
um pouco como se compusesses teatros do mundo nos quais existem personagens
cuja presença surge legitimada pela sua função
de identificação de uma determinada identidade –
ou da sua ideia -, pelo seu poder e acção de desocultação
daquilo que nós mesmos somos enquanto sujeitos singulares de
um colectivo. Existe como que uma arquitectura interna na própria
organização estrutural das telas que confirma essa ideia
de anfiteatro do mundo: um anfiteatro onde desfilam arquétipos,
por vezes mostrando as máscaras ...
TF – Sim, eu acho que a minha pintura quase
poderia ser chamada de ópera buffa, porque se trata
também aí do exercício de um sentido crítico
de ver as coisas, do próprio ridículo da humanidade
e das suas destruições. Mas também há
a parte lírica. A minha obra tem que ver com o sarcasmo, eu
gosto de jogar com a humanidade.
MS
– É engraçado, tu falares nisso. Porque, ao mesmo
tempo, isso quase se aproxima da ideia própria à tragédia
grega de uma encenação da condição humana
a partir da coexistência dos discursos singulares e colectivos:
um registo global que ramifica no sentido do sujeito. E isto poderia
levar-nos a falar da própria arquitectura da tela estruturada
enquanto espaço de recepção dos seres e dos próprios
objectos quase enquanto “segundas naturezas” ditadas pela
sua própria função simbólica e intertextual
... Um violão aqui não é apenas um violão
... e a cada rosto humano sabemos que corresponde, na tua pintura,
uma determinada máscara.
TF – São várias as soluções
de simbolização que uso, por necessidade ou invenção
pessoal. Eu crio muitas mitologias na minha pintura. Tudo aquilo que
invento e reinvento - cada máscara -, é símbolo
dessa tragédia do humano, sim. Eu sou uma eterna criança
a tentar reinventar, mas sempre com uma atenção muito
especial à atitude das outras pessoas. Trata-se de uma espécie
de regresso a uma infância racional no acto de representação,
digamos assim. É uma forma de rebeldia ... eu acho que sou
rebelde.
MS
– Tu há pouco falavas da reabilitação dos
mitos. Como é que tu geres essas simbologias, como é
que se dá essa criação de sentidos, de intensificação
dramática e objectual das posturas do Homem enquanto actor
no universo mítico - e radical - do ser? São cenários
de uma vida em devir? Cabo Verde é sinónimo de diversidade:
são ilhas com múltiplos microcosmos narrativos.
TF – Cabo Verde será sempre uma referência,
para mim, com os seus contos de bruxas e mitologias próprias
a África, mesmo sendo um país muito especial de cultura
crioula. Mas eu acho que naquilo que eu invento existe sempre a referência
à própria essência do comportamento humano. Em
qualquer sociedade do Mundo - e ao longo de milhares de anos da tragédia
humana-, o homem cria o Belo e destrói em dez minutos aquilo
que construiu. A pintura para mim é uma forma de transmissão
da amargura humana que deveria ter uma função quase
que religiosa. Que as pessoas fossem ver obras de arte, sim; mas com
a conscência de estarem a rezar.
MS – Falas de catarse e alquimia a propósito
da função social e psicológica da arte?
TF – Completamente. E é essa a verdadeira
dimensão quase perdida da pintura, talvez por causa dos grandes
marchands d’art que pessoalmente considero serem a escória
de toda esta história da relação dos sujeitos
com a obra. A arte é feita por pessoas e faz-se para as pessoas,
é comunicação. A pintura terá sempre uma
função social de protesto contra os males do mundo,
contendo - por outro lado o seu lado mais belo.
MS
– A par da intervenção temática e social,
em termos técnicos quase existe um jogo de (des)construção
do corpo na representação da figura humana, no teu trabalho.
Utilizando até os referentes lançados pela pintura moderna,
apropriando-te de referentes estéticos e históricos
da cultura contemporânea e recontextualizando-os. A tal questão
da memória do corpo e do seu desnascer, como falávamos
no início.
TF – Sim, porque nada é novo nesta vida, tudo é
retorno e esquecimento. Há em mim a referência constante
de alguns pintores que estudaram profundamente essa tragédia
do humano. Francis Bacon pelo lado da decadência do humano e
Léger pela sua robotização do homem já
sem tempo para amar. Dizer essas coisas na tela é tentar, numa
utopia, recompor o Mundo.
MS
– Por onde corre o sangue na tua pintura?
TF – É pela noção de ritmo
que me movo e pinto,, sem dúvida. Quanto à côr,
eu posso pintar a preto e branco, se quiser. Mas a côr é
sempre a intuição de um momento. Eu pinto pela intuição
e tento desmaterializar o que aprendi na Escola de Belas Artes, que
me abriu alguns caminhos. Os trajectos somo nós que os fazemos
no gesto de criar. As cores têm uma mera função
intuitiva, não existem estudos.
MS
– Na tua pintura existe sempre uma representação
da dualidade. Nos binómios de equilíbrio/desiquilíbrio
que definem a superfície de representação, por
exemplo. Ou na referência a instâncias ímpares
de representação de temas e figuras. Vértices
de assimetria, para além do exercício escatológico
e irónico. Isso tem que ver com a procura de uma síntese
última, a "última palavra" dada pelo plano
discursivo subjacente a cada imagem. O que é que procuras?
Existem verdades filosóficas a desocultar?
TF
- Sim, ... e quando falavas há pouco da deformação
expressionista e lúdica do corpo, ela corresponde exactamente
a uma forma de exposição e pensamento do real. Existem
excepções, claro ... Como por exemplo quando rendo homenagem
à beleza de uma mulher. Mas como os meus quadros são
sempre muito polémicos e de forte intervenção
social e cultural, eu penso que essa deformação corresponde
vontade de denúncia da estupidez humana. Quanto ao plano discursivo,
interessa-me particularmente o desenvolvimento de uma forma não
conceptual de enunciar. Aliás, do conceptualismo gosto de citar
apenas o nome de Barbara Krügr, uma autora cujo uso plástico
da palavra acentua a intenção verbal de modo particularmente
evidente. Talvez seja só isso que me interessa no conceptualismo,
sempre pela via de uma clarificação dos conteúdos.
Sabes, na verdade penso que o Homem é um ser falhado. A cultura
ocidental provavelmente perdeu-se quando mecanizando, esqueceu o espírito;
e isso não acontece com certas culturas asiáticas ou
amero-índias, por exemplo, que – apesar da experiência
da destruição -, conhecem um certo equilíbrio
e respeito pelas origens. Talvez a solução para essa
tal falha humana resida na vivência atenta. E intuitiva. Penso
que é a minha necessidade de amar que me leva a entrar nesta
angústia perante o erro humano. Há sempre essa dualidade
entre o amor e o ódio pelo que somos.
MS – Como é que as tuas próprias
referências familiares jogam no teu modo de pensar e sentir,
já que tu próprio possuis uma boa parte de sangue índio
e outro tanto proveniente das muitas ilhas?
TF – Sim, eu ... diria que sou uma espécie
de protótipo do universalismo (risos). O meu bisavô era
português, da Madeira. Do outro lado tenho sangue índio
e negro, junto todos os continentes dentro de mim e isso é
uma forma de estar consciente que me obriga a ser tolerante perante
qualquer tipo de homem. Não existem raças porque qualquer
ser humano terá necessariamente um aspecto diferente. Isso
para mim é francamente irrelevante e apenas serve para enriquecer
as geografias da alma.
MS – Tu nasceste no ano de 1953, em S. Vicente.
Para além daquilo que possa caracterizar o contexto geográfico
e político do lugar e do tempo, uma determinada identidade
cultural, existe ainda uma tradição expressiva na tua
família ligada à literatura e às artes plásticas.
Queres falar disso?
TF – É isso, precisamente, até
porque em Cabo Verde nunca tive a percepção da componente
de diferença na minha identidade. Foi depois que vivi na pele
a experiência do racismo e da exclusão. As crianças
nunca têm esse olhar de fora sobre as coisas, são ainda
completas.
MS
– A tua saída de Cabo Verde correspondeu a um
segundo nascimento, como um segundo corte?
TF – Completamente. E à descoberta de
algumas coisas feias deste mundo.
MS – Falemos de memórias, então.
Como é que começaste a pintar?
TF – Eu acho que sempre pintei. Aliás
- e a propósito -, eu tive um professor de escola no tempo
colonial que sempre disse que eu jamais seria pintor. Já aí
eu tinha reacções, intervenções muito
fortes nas aulas de pintura, lembro-me que era rebelde antes de retirar-me
de Cabo Verde e esse homem era cruel. Tudo se passava no cenário
de frustração surda próprio às escolas
coloniais, imagina ... onde um burocrata esquece o sentido da pedagogia.
Mas creio que, de algum modo, esse homem se enganou (risos) ...
MS
– O que é que te afastava da lógica académica
e cultural vigente? Quais são as tuas paisagens da memória
de S. Vicente, na altura?
TF – S. Vicente era uma ilha muito próspera
que vivia da crise da guerra israelo-árabe, nos anos 60, precisamente.
Os barcos regressavam ao porto do Mindelo e havia muita vida, festas,
marinheiros e prostitutas. Tudo isso ficou no meu inconsciente e é
isso que retrato de novo, mas agora talvez com uma nota de decadência
isenta de saudosismo. Era também uma cidade portuguesa, claro,
com soldados e militares, onde havia sempre aquela tensão entre
o colonizado e o colonizador. Francamente, eu tinha uma certa raiva
dos portugueses, para ser completamente verdadeiro. Isto porque achava
injusta a presença abusiva de estranhos na minha casa. Até
me lembro de uma cena passada com o meu pai num dia em que houve briga
entre portugueses e caboverdeanos. Eu desconhecia o conceito de regime
ditatorial e comentei ingenuamente ao jantar “ – Mas
porque é que há isto? Porque não vão para
a terra deles?” ... Foi mera intuição. E
o meu pai respondeu: “Tu nunca digas isso na rua, senão
vêm buscar-nos e somos presos.”
MS
– Essa história poderia também inscrever-se num
quotidiano português em pleno Antigo Regime ...
TF – Exacto. E foi isso mesmo que me fez partir.
Só quando saí de Cabo Verde tomei consciência
da verdadeira dimensão da experiência da ditadura e da
própria intervenção portuguesa noutros lugares
onde, aí sim, existia a Guerra e a Morte. Isso foi em 1970,
quando o meu pai me manda para a Holanda e onde vivi durante quatro
anos. Estive a navegar durante uns dois anos, eu acho.
MS
– Navegar ... como aconteceu isso?
TF – A verdade é que nunca pensei ser
marinheiro. Fui para a Holanda porque queria ser ... o meu pai mandou-me
partir aos dezassete anos, antes da mobilização militar,
por causa da Guerra. E depois eu estava farto da escola, queria evadir-me
e fui ao encontro de um tio na Holanda, embora a ideia fosse ir estudar
para a Universidade Católica de Louvain, na Bélgica.
Enfim, essa história toda ... mas eu estava-me nas tintas para
tudo isso e fui navegar para ver o Mundo.
MS
– Porque tinhas ilusões, passaste por onde?
TF – China, Austrália, Japão.
Venezuela e Estados Unidos; enfim, estive no continente africano que
desconhecia. Depois permaneci dois anos na Holanda em dolce fare
niente. Foi então que tive necessidade de saír
e fui para a Suíça ter com a minha irmã que já
lá vivia. Na Suíça tive oportunidade de conhecer
alguém que era dado às artes e que despertou em mim
tudo aquilo que eu queria exprimir.
MS
– Referes-te à tua experiência intensa de Basel,
onde trabalhaste de 74 a 85?
TF – Exacto, é nesse período
que eu conheço essa pessoa e que viajei para Paris onde tinha
amigos e irmãos. Acho que despertei realmente para a vontade
de criar quando visitei o Louvre pela mão de uma amiga e vi
um enorme painel de Delacroix. Recordo-me apenas do tema, não
do título da obra. Da sua imensidão e tragédia,
das figuras caíndo de um precípício em que uma
mão as agarrava pelo cabelo, não sei. Era qualquer coisa
de uma enorme intensidade que me fez começar os primeiros esboços,
de regresso a Basileia. De início achava muito maus todos aqueles
trabalhos.
MS
– Começaste pelo desenho?
TF – Sim, mas claro que não dominava
muito bem essas técnicas. Usava lápis, carvão,
de tudo. E essa pessoa que me acompanhava incentivou-me a ir para
a Escola de Belas Artes, onde consegui passar a prova de acesso.
MS
– Isso foi de 76 a 79, portanto. Como é que decorreu
a tua experiência académica na Suíça em
termos de ligação ao próprio programa e corpo
docente da Escola e da aquisição de um raciocínio
plástico próprio?
TF
- Existiu tudo isso como dizes, a estruturação de um
pensamento próprio ligado à convivência. Na Suíça
dos anos 70 a presença de um caboverdeano era algo inesperada.
Eu era um bicho raro perante quem as pessoas tinham certas atenções,
afecto e carinho e criei uma grande amizade e conivência com
Eric Schaff e Fedier, meus professores de desenho e pintura na época.
Essas pessoas deram-me muita força, isto para além das
amizades que fui criando nesse novo espaço. A minha primeira
exposição foi na casa da minha ex-mulher – porque
essa pessoa que estou a referir sempre e que me deu todo o apoio é
ela - , num dia em que me achei finalmente maduro para mostrar aquilo
que fazia. Demos, então, uma festa nessa casa não muito
grande, para a qual convidámos muitas pessoas e onde juntámos
alguns artistas mais ou menos conhecidos no meio. Digamos que, em
termos objectivos, foi uma grande desilusão, porque os artistas
nem olharam para nada .... são muito vaidosos os artistas,
como sabes (risos) ... e essa foi a minha primeira experiência
de decepção com a pintura. Mas, felizmente, a perserverança
venceu tudo ...
MS
– Como é que foi decorrendo a definição
do teu discurso plástico em termos estéticos, técnicos
ou temáticos?
TF – No princípio, devido às
minhas inseguranças no domínio do desenho, tentei entrar
no domínio da abstracção, o que não durou
muito tempo.
MS
– A vertente de geometrização no teu trabalho
está, no entanto, ainda bastante presente, hoje em dia. Tanto
no entendimento do corpo como no tratamento dos valores espaciais
das tuas obras, não concordas?
TF
- Sim, é um trabalho de muitos anos, ao qual se seguiu o retorno
ao figurativo – mesmo tratando-se de um figurativo muito primário.
Isso tem que ver com pintores como Jean Dubuffet.
MS – Ou com Cèzanne, pela intensificação
do valor objectual dos elementos sobre a tela e pela tensão
criada entre os planos de representação. Essa espécie
de desdobramento por tensão dramática na concepção
do espaço interno da tela. Porque eu penso que existe sempre
uma enorme tensão física e muscular nos teus trabalhos.
TF
– Pois, aquilo a que os alemães chamam spanung ... tal
como se algo pudesse explodir, rebentar. Foi sempre essa a grande
força da minha pintura, esquecendo todas as teorias e expressar
com toda a sinceridade o que sou e sinto. Essa é a base fundamental
de tudo aquilo que o ser humano faz.
MS
- Tu falaste-me um dia de um período de trabalho caracterizado
pelo quase fechamento da côr, de uma fase de natureza dita existencialista.
Talvez por época de um segundo corte, após a tua partida
de Cabo Verde.
TF – Eu acho que isso acontece na passagem
para os anos 80, algures. Foi um período muito curto em que
sofri muito porque me faltavam as cores do céu, o mar. No princípio,
quando comecei a trabalhar na Suíça estava tão
preocupado com o academismo que não me idealizava ainda como
autor, apenas como aluno e esse período de tomada de consciência
do ser artista – com tudo o que isso implica em termos de postura
e filosofia de vida, ou percepção das coisas -, correspondeu
à angustia de uma perda, ao sentimento absoluto de desenraízamento.
Isso correspondeu a um despertar muito doloroso da identidade. Do
ser emigrante, também ... (pausa). A dor enquanto preço
da aprendizagem.
MS – O teu trabalho tem a ver com a própria
conta-corrente dos dias, onde também religas coisas: pintura,
poesia e música, por exemplo. Isso e a conjugação
do verbo amar para a reabilitação do conceito de Homem.
TF – Talvez a minha vocação correspondesse
afinal à que se encontra subjacente ao conceito de humanista.
Apenas não falo aí da religião, que para mim
não é muito simpática. Não sei se sou
agnóstico, digamos que acredito em qualquer coisa. Quando não
existem especulações em redor dos poderes religiosos,
respeito as pessoas crentes. Quanto a mim, não sei.
MS – Como é que tu lidas com os valores
intitucionais? Igreja, Estado ... Política?
TF – (risos) ... essa é uma boa pergunta.
A Igreja é uma chatice enquanto grande instituição
... Falar do Bem e do Evangelho frente aos dólares do Vaticano?
O Papa vive bem e não sai para a rua como Jesus Cristo. E isso
corresponde a uma aldrabice qualquer ... os políticos, esses
são um mal necessário. O Homem não está
preparado para assumir a segurança da autonomia sem destruir
o Outro.
MS
– São, então, necessárias as normas que
correspondem à Morte da Utopia?
TF – Eu acredito, por exemplo na instituição
da amizade entre o Homem e a Mulher. Acredito que eles podem compartilhar,
terem filhos. Eu não sou um misantropo, gosto das pessoas e
do mundo, englobando até os mais canalhas. Porque penso que
há uma razão para o mal que não passa pela genética,
isto se quisermos fazer aqui uma análise freudiana. Isso depende
de outros factores.
MS
– Numa primeira instância o medo é sempre prefiguração
do Mal, da Morte?
TF – Absolutamente, o Medo traz o Mal. E ele
corresponde sempre ao medo de morrer. Eu confesso que vejo isso muito
freudianamente, talvez pela minha educação germânica,
os meus amigos acusam-me de excesso de análise. Digamos que
esse modo de pensar corresponderá, talvez, ao tal desdobramento
de planos de que falávamos e isso estrutura cada quadro.
MS - E como foste tu religando as geografias do teu
percurso antes da decisão do regresso a Cabo Verde , até
lá tu tinhas exposto inicialmente na Suíça, mas
depois surges no Museu das Artes Africanas e Oceânicas de Paris,
quando já te encontravas de novo a viver no Mindelo ....
TF – A função do artista é
sempre o exercício de um modo de dar. É assim que trabalho
e vivo, desde sempre. Não há melhor modo de integração
humana do que a fidelidade a esse mesmo conceito de integração
porque só isso possibilita a recepção e coerência
do sujeito e da obra, a posteriori. Mas depois, a muitos
níveis na arte e na vida, há pessoas tacanhas e estúpidas
que não se preocupam com certos valores morais primários,
como os de gostar, amar, partilhar. Porque tudo aquilo que vivemos
irá irrevogavelmente acabar e, se vivemos teremos de partilhar
sempre.
MS
– Toda a matéria tende para a dissolução,
dizes tu, agora. E eu acrescento que existe a confirmação
dessa sobrevalorização dos valores espaciais, no teu
trabalho. Se quiseres, faço-o ainda de outro modo: digamos
que se tratará talvez de uma atmosfera global de mutação
que nos leva a pensar a tela enquanto habitáculo. Como se o
valor aéreo da representação nos permitisse a
vivência por dentro da própria pintura. Uma hipótese
de transfiguração, de expansão do corpo através
da visualidade. O olhar dando passagem à experiência
física da pintura ...
TF – Isso parece-me muito interessante, porque
um amigo escritor que habitualmente me visita no atelier e que um
dia escreveu um conto que fala nisso. Nessa história existe
alguém que supostamente sou eu, o artista, que estou no meu
espaço com as minhas obras. Durante a noite as figuras saem
das telas e conversam, então, comigo num registo íntimo
de sonho e realidade indistintos. Essa ambiguidade espacial corresponde
a uma ambiguidade de sentimentos acordada pela pintura enquanto porta
de abertura, de passagem. De visita e transcorrência.
MS
– Entendes a pintura enquanto domínio de comunhão
com o sagrado, espaço incluso de abertura e recepção,
suporte de transfiguração do Homem que a contém
e nela está contido? A pintura enquanto modo de reabilitação
dos valores lúdicos e telúricos.
TF – Pode ser o tal espaço da totalidade.
Quem sabe senão o regresso ao mais primitivo dos rituais humanos,
onde também se combatem todos os tabus. A pintura tem a ver
com essa ideia de retorno, sim, tentando chegar ao mais profundo da
nossa existência. Corresponde a uma reconquista do universo
perdido das intuições, da dimensão animal. É
também uma forma de rezar e de compartilhar a minha reza com
os outros, da minha parte.
MS
– O exercício pictórico corresponde a uma estratégia
de pacificação e ao desocultar da identidade, assim
sendo... Mas isso também implica o esquecimento da singularidade
individual; não por via da negação da identidade
mas sim por uma espécie de "desnascimento". Uma das
vias seguidas pelo teu trabalho é a da representação
de grupos sociais inscritos em temas inerentes à esfera pública
ou privada. Existe, por outro lado, uma tela intitulada Diógenes
no Mindelo que traduz um pouco uma visão global da
condição humana, não é assim? E fá-lo
novamente reavaliando o próprio conceito de espaço de
representação, talvez apostando numa representação
da espacialidade pelo universo infindo do inconsciente.
TF – Sim, essa é uma tela supostamente
entendida como um preto e branco, mas que tem um azul do
mar. O que poderei dizer dessa tela passa, de facto, muito pelo lado
simbólico. Diógenes, o cínico com a lanterna,
será também aqui uma figura do universo caboverdeano;
isto para além de poder ser interpretado como um auto-retrato.
Entendo que aquilo que cada um faz corresponde normalmente ao seu
próprio retrato e essa será talvez a visão que
tenho de mim mesmo, no Mindelo, à procura de um Homem justo.
Claro que poderei não ser apenas eu, essa obra poderá
retratar o Homem na realização da sua potencial grandeza
– porque a figura é maior que a montanha e todos os outros
elementos –, no alcançar de uma condição
espiritual harmónica que lhe permita dispensar a lanterna e
o próprio objecto.
MS
– Existe uma busca de síntese final no teu trabalho,
após a ultrapassagem da noção de fronteira? Digamos
talvez que “a condição – ou o amor –
que nos tem é aquele que também nos mata”? Existem,
ainda que por vezes alternadamente, pólos de descentramento
da leitura visual, nas tuas telas: forças centrípetas
ou centrífugas ...
TF - Exacto (risos) ... Mas isso corresponde até
ao meu próprio percurso, à minha própria visão
do destino humano.
MS – Cada uma das tuas obras reflecte então
etapas desse teu modo de pensar o real numa espécie de exercício
da transversalidade consciente/inconsciente. E quanto ao teu encontro
com outros modos de representar e sentir o destino humano, nomeadamente
quando trabalhavas na montagem de exposições de outros
autores? Como é que isso acontece, essa mudança
de pele ....
TF – (Risos) ... Ah, eu conheci muita gente,
o escultor espanhol Chillida, alguns pintores alemães como
o Imeendorf, o Enzo Cook – italiano da transvanguarda -, quando
ele realizou lá uma exposição. Eu ajudava a montar
exposições para ganhar dinheiro e cruzei-me com pessoas
incríveis, entre as quais o Director do Museu de Arte Moderna
de Frankfurt, o Jean Christophe Ammann ...
MS – ... E participaste numa mostra colectiva
de homenagem ...
TF – Sim, sim participei. Ele é um homem
internacionalmente reconhecido no mundo das artes e foi ainda a pessoa
que realmente me lançou enquanto artista, quando me expôs
nos anos 80, numa colectiva realizada para a Kuntsthalle de Basileia,
ainda na Suíça. Foi um dos promotores reais da minha
carreira artística transmitindo-me um enorme incentivo, à
semelhança do trabalho que desenvolveu com muitos e muitos
outros artistas, dada ainda a sua enorme sensibilidade. Mas conheci
as tais outras pessoas anónimas, oriundas de todos os cantos
do mundo, porque Basileia era também uma cidade pequenina onde
a “família das artes”, chamemos-lhe assim, estava
sempre mais ou menos junta. Passavam pessoas interessantes por Basileia:
actores, actrizes que ainda hoje conheço e com os quais partilhei
uma vivência próspera. Continuo a ser amigo de muitos
deles e a corresponder-me ... Eu acho que já fiz muitas coisas
lindas nesta vida, sabes? Só espero continuar a poder vivê-las.
MS
– O que te levou de regresso a Cabo Verde, quando tomas a decisão
de viver e trabalhar no Mindelo em 85?
TF – Isso aconteceu por duas razões.
Em primeiro lugar – e depois de tantos anos na Suíça
-, senti que já não aguentava mais, comecei a sentir-me
quase que depressivo no seio daquele modo de estar dos suíços.
Por causa do clima, também, para além de outras coisas.
Depois, decidi regressar ao Mindelo por sentir que era aquele o momento
certo para voltar e mostrar o que fazia, revendo a minha terra já
com um certo percurso feito e estabilidade. De algum modo, já
tinha ganho algum reconhecimento na Suíça e seria possível
voltar a Cabo Verde com algum trabalho feito, dizer: “Meus
senhores, eu fiz isto e quero abrir um atelier de formação
para crianças ou até mesmo adultos ...” Essa
era, na altura, toda a minha ideologia, foi isso que pensei fazer
em Cabo Verde e que infelizmente nunca foi realizado. No entanto,
não me arrependo pela decisão tomada, vivo bem lá.
MS
– Mas tu estiveste cerca de seis anos sem expôr, não
foi? Tu voltas a fazê-lo na Praia quando és capa da Revue
Noire, em Setembro de 91.
TF - Pois, exacto. Olha, esses foram os tempos das
vacas magras do regresso a Cabo Verde com uma pintura moderna
que o público local desconhecia – é preciso não
esquecer que lá, em Cabo Verde, não existem instituições
de arte ou Museus e essas coisas todas. Infelizmente, ainda hoje a
ideia dominante de arte centra-se naquilo a que poderemos chamar de
realismo e no decorativismo sendo que eu tive dificuldades em singrar.
Mas a preserverança faz mesmo tudo.
MS
– Em tua opinião, quais serão os parâmetros
fundamentais pelos quais deverá reger-se o trabalho de conscencialização,
divulgação e promoção da expressão
plástica e artística em Cabo Verde? Isso passaria necessariamente
pelo repensar da própria acção institucional
em termos de consciencialização dos referentes culturais
da tradição e da contemporaneidade?
TF – Bom, eu acho que tudo isso passa pela
própria disponibilização e sensibilidade do Ministério
da Cultura, isso é fundamental. Em primeiro lugar, ouvindo,
escutando as opiniões dos artistas, dos músicos, etc.;
em segundo lugar, apostar na criação de um Museu de
Arte Contemporânea – caboverdeana e não só;
por último, acho que seria importante a existência –
pelo menos na Praia que, com os seus milhares de pessoas é
a capital do País -, de uma Galeria de Arte que poderá,
com o tempo, trazer os artistas de Cabo Verde para a Europa. Por exemplo,
para a Feira de Arte Contemporânea de Lisboa ou para a ARCO
de Madrid, mostrando com isso que o País tem a sua arte e os
seus valores. Isso deveria ser feito com os autores que estão
em Cabo Verde, mas também com os que estão na diáspora,
aqui em Portugal inclusivamente. Essas, em minha opinião, serão
as coisas mais pontuais, para além da promoção
de debates sérios entre artistas, jornalistas, escritores,
políticos também – porque não? -, na televisão
e na rádio caboverdeana. Aliás, enquanto meio de comunicação,
a rádio tem no País uma imensa força.
MS
– Isso passaria ainda pela multiplicação das próprias
instâncias de criação, refiro-me aqui aos criadores
e também às próprias condições
das práticas artísticas. Tu falaste um dia do sonho
que te fez regressar: a criação de um atelier de formação.
TF – Sim, mas agora talvez apenas como consultor.
Claro que daria a minha ajuda, mas acho que existem pessoas com a
formação e capacidades certas para tomarem conta desse
tipo de projectos. Cabo Verde tem enormes talentos, existem jovens
artistas promissores; mas o que se passa é que toda essa força
criativa carece globalmente de orientação estética.
Criam-se, portanto, muitas fantasias também devidas à
inexistência de um balanço efectivo de valores. Isso
dá origem a alguma vaidade e pretensiosismo num contexto onde
não existe crítica de arte. O caboverdeano, em minha
opinião, tem por vezes o defeito de tecer críticas sobre
todas as coisas, e isso é uma grande chatice ....(risos) É
como a velha história do gajo que olha para o meu quadro e
diz: “ ... ah, eu não percebo nada de arte, mas eu
acho que ...”. Eu respondi-lhe: “Não,
tu não achas nada. Se não percebes nada de arte, cala
a boca!”. Penso que temos que há que acabar com
esse “acho que” e fazer, embora eu infelizmente não
conheça ainda nenhum verdadeiro crítico de arte em Cabo
Verde, com a respectiva formação estética e académica
que lhe permita separar o trigo do joio. Arte pimba e música
clássica não podem ir no mesmo saco.
MS
– Tu falaste na necessidade de activar pontos de manifestação
cultural e artística desde a capital da Praia, mas também
já disseste que S. Vicente e Santo Antão são
as ilhas que mais têm influenciado o teu trabalho. Ele cruza,
no conceito de trabalho e vivência artísticos, diferentes
planos e suportes. Diferentes leituras e escritas: a poesia e a música
para além da pintura num contexto de vida partilhada. Um dia
eu disse-te que percutias a côr, aquela que tu mesmo poeticamente
defines como “a intuição do instante”.
TF – Eu acho que sim, até porque o reactivar
das cores correspondeu ao regresso a Cabo Verde. Talvez tenha a ver
com o correr do sangue e com toda uma alegria do regresso às
raízes, depois de tantos anos de desenraízamento. E
ter essa felicidade ocasiona depois uma espécie de explosão
das cores do mundo no universo. No entanto, apesar disto, as minhas
últimas obras são a preto e branco, o que já
implica uma reinvenção da própria noção
de côr e das suas conotações psicológicas
tradicionais. Para mim o cinzento ou o castanho já não
são mais cores depressivas, são apenas meros materiais
utilizados no meu trabalho.
MS
– Matérias de inscrição, de escrita?
TF – Exactamente, depende da reflexão
do momento. São caligrafias diferentes para cada momento.
MS – A tua pintura assume uma vertente narrativa,
qual é a tua linguagem de valorização do instante?
Qual é o lugar do discurso por detrás do corpo da imagem?
Existe um gesto de desdobramento?
TF – Partindo do valor da ideia, eu acho que
há momentos na concepção da minha pintura a que
eu chamo de momentos de ponderação que acontecem quando
estou num bar a beber um copo. Ou quando escrevo, sim. A minha escrita
e as minhas imagens nascem sempre de momentos muito pontuais que reconheço
como momentos de uma certa tristeza e melancolia. Porque são
instantes em que estou a conviver com pessoas cheias de alegria. Exactamente,
a tal ideia de desdobramento e de alternativa ao real que assenta,
por exemplo, na consciência da solidão humana. Todos
nascemos e morremos sózinhos, para além da existência
de uma preocupação real com os instantes de participação
e convivência humana, sentindo-me gente e estando com gente.
Nesta utopia de harmonização última do Homem,
há sempre a consciência da solidão do artista
dada até pela observação crítica, alucinante,
dos comportamentos das pessoas e de mim mesmo enquanto participante
em todas essas estórias. Isso encontra-se por detrás
das minhas imagens e nalguns poemas, por exemplo, num em que eu digo
“apaixonei-me por uma menina num bar” e mais
não sei o quê. Posso dizer-te que sei exactamente onde
e quando escrevi esse poema nascido de um momento de solidão
completa; apaixonei-me por ela pela simples razão de ter sentido
que, algures, nós dois estávamos solidários na
mesma situação. E então, são todas essas
nuances e reflexões que me levam a criar esse universo pictórico
e poético.
MS
– Na tua escrita existe o recurso a um valor de fusão
que por vezes não encontramos tão imediatamente, na
tua pintura: existe um olhar sem medo perante a tal dissolução
do Eu que quase possui um oposto geométrico na tua pintura.
TF – Sabes, eu acredito que todos nós
somos Drs. Jake and Mrs Hyde, e lá estamos a regressar à
ideia do Bem e do Mal, outra vez. E eu acho que na escrita existe
esse lado muito mais sublime, na pintura existe a violência
ou até a raiva de toda a existência humana.
MS – Tanto na escrita quanto na pintura, o
uso do ritmo é fundamental nesse tal conceito do espaço
de expressão que tu referias como spannung ...
TF – A ideia de ritmo, pintura, poesia e música,
sim. Está tudo ligado e é tanta coisa ... eu sou uma
pessoa muito intuitiva, sabes? Eu toco percussão com um grupo
de música tradicional caboverdeana que propõe algumas
ideias novas, digamos assim, numa certa avant-garde. É
uma coisa que faço com o maior gosto, nem sempre com o tal
espírito do blues, nem nada que se pareça!...
(risos) Eu sou aquilo que sou e acho-me o fruto de qualquer coisa
produzida por um homem e uma mulher. Disso tudo, criei a minha própria
identidade que é aquilo que todos procuramos criar e conhecer,
enquanto Vida e Função próprias desenvolvidas
até à Morte. E o bom de tudo isso reside na possibilidade
de deixar algo positivo para a posteridade, assim como quando estive
em Madrid a ver As Meninas de Velasquez, perguntando-me:
“Como é possível, depois de tantos anos vejo
este quadro e fico completamente fascinado?”. Quer dizer,
este homem deixou um património para a humanidade e isso é
fantástico.
MS
– Porque tens medo de voar?
TF – Olha, foi um trauma qualquer. Eu já
tinha andado de avião várias vezes antes e uma vez aconteceu
uma coisa qualquer, lembro-me que foi em 77 quando ia para Cabo Verde,
fomos via Guiné-Bissau – ainda era aquela história
do pós-25 de Abril -, e algo se passou que não foi nada
de grave mas que me tocou, desde aquele dia. Tenho, sim essa aversão
aos aviões que é também um medo da Morte. Eu
acho que ... lembro-me de cenas da minha infância, de sentir
medo, perdi a minha mãe muito novo, por exemplo. Há
uma relação muito profunda com isso, o sentir-me ...
perder o chão, literalmente. É esse Medo que está
latente nos meus quadros, que se nota a par da representação
da tragédia humana e da Morte. Nunca pelo lado do fascínio,
mas sim pelo mal que me faz sentir. Esse medo da Morte que será
sempre medo da Perda, sim, e que eu vou tentando reequilibrar, levam
a minha pintura e a minha poesia para o campo de um gesto de exorcismo
dos fantasmas. Isso, a par da expressão do Belo e do Horrível;
do prazer de viver e criar, de estar na vida. Todo o homem é,
pelo menos durante cinco minutos por dia, um verdadeiro imbecil; isto
já o disse alguém. Mas o importante será não
ultrapassar muitas vezes o limite desses cinco minutos, por via de
uma maior consciência da razão de ser da Vida. Nós
não somos perfeitinhos como os insectos e as abelhas: o Homem
chora, cozinha e lava fraldas. E tem de procurar o equilíbrio
de todas essas coisas. A perfeição total não
existe, como sabemos. Ou então, se existe, é para os
insectos, que lá terão as suas razões aparentemente
incompreensíveis e quase que invisíveis, aos nossos
olhos".